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Capítulo 17: XVI - O que é a vida?

Página 97
XVI - O que é a vida?

O Gabiru não entende a vida. Acha-se de repente num pélago refervendo oiro. Descobre torrentes impetuosas de ódio, torrentes de escárnio, a Árvore, as estrelas, um eterno redemoinho, gritos, levadas de sonho.

Para onde? para onde corre tudo isto? A Morte ao lado duma árvore cheia de flor. Um caos. Treva e sol, oiro em borbotões, e o homem indiferente... Ao dar de cara com a existência, ao ver-se escarnecido, o Gabiru grita.

Pois passa o inverno e a tempestade, vem a primavera e o sol, e o homem nem sequer os olhos ergue? Sob os seus pés a terra move-se, num burburinho, toda ela viva; sobre a sua cabeça a abóbada do céu arqueja, carregadinha de estrelas – e o homem queda-se inconsciente? Há o escárnio, a desgraça, pedras, constelações e o mar profundo e o homem continua impassível.

O que é isto? o que é a vida? o que é este mistério onde o homem entra como a salamandra no fogo? Pode alguém de repente dar com uma árvore cobrindo-se de flor, sem ficar espavorido? No mais desprezível charco se espelha o sol e tumultua a matéria em combinações infinitas – e o homem segue o seu trilho inconsciente!..

Todos os desgraçados se reúnem no saguão para o interrogarem – os ladrões, os pobres e as mulheres da viela. O que é a Vida? o que é a Vida? Uma alma, um sonho? A vida tem realidade? O que pratico sobre a terra é indiferente ou vai repercutir-se algures? Isto é lodo ou fogo, aparência ou temerosa realidade? E o escárnio e a água a nascer fulgindo de entre a terra, a dor, o amor, a nuvem que passa, o vento? Tudo isto é um turbilhão de almas e de pedras, de árvores e de sonho, sem fito, ou esta levada esplêndida caminha para um fim ignorado de beleza? Ideio numa cova, num sepulcro fechado, ou vivo a verdadeira existência?

E os pobres? porque é que os pobres sofrem sem gritos, revolvidos como a terra por este arado – a dor?

Só vêm a este mundo para sofrer?

O Gabiru via-os cheios de resignação seguirem o caminho da vida, cada um com sua cruz, feridos nas pedras aspérrimas, sem pão, escarnecidos, tombando por terra sem poderem mais.

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 97

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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