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Capítulo 25: XXIV - O ladrão e a filha

Página 139
XXIV - O ladrão e a filha

A filha da Asilada e do Morto criou-se na viela entre gritos das mulheres e chufas de soldados e ladrões.

Tinha quatro anos e dormia pelos cantos ou nos braços da Gorda e da Mouca. Assentava-a nas pernas o Velho que tinha sido cavador e que abria para ela a enorme boca desdentada. Fazia-lhe festas a patroa. Enchiam-na de beijos as mulheres num frenesi e dias inteiros passavam por ela sem a verem. Esqueciam-na.

Adormecia a chorar nas camas ou nos degraus das portas.

Só a mãe lhe fugia sempre:

– Não a posso ver!...

Mas ela crescia. Crescia ao acaso, naquele sítio de alucinação onde os seres se transformam como em sonho, em figuras de verdade que só a certas horas vêm à superfície, irrompendo do mundo de dor e de tragédia a que pertencemos todos...

E o Morto perguntava à amante:

– Porque não podes ver o anjinho?

– Sei lá! Não a posso ver...

– És pior que as cabras!

E batia-lhe. Ela calava-se com um olho fixo de maldade e de espanto.

– Escusas de me bater, não a posso ver. Tomei-lhe raiva. Deixa-me!

Agasalhava-a o ladrão com velhos trapos. Encostava- a ao peito, e nesse inverno dera-lhe um casaco velho para a aquecer.

– O tropeço não morre? – perguntava a Asilada, talvez de propósito para o ladrão lhe bater.

O tropeço não morria. Punha-se a olhar para o pai, a agarrar-se-lhe às pernas, a querer segui-lo quando ele partia, e lá ia crescendo na viela negra entre gritos e injúrias e o cantar triste das mulheres.

– Mas porque é que bates na pequena? – diziam-lhe as outras.

– Não sei! não sei! – gritava.

No começo do inverno a Asilada foi para o hospital e antes de a levarem abraçou-se à filha a chorar num desespero. Foi difícil arrancar-lha dos braços.

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 139

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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