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Capítulo 3: II - O Gebo

Página 23
II - O Gebo

Heis-de tê-lo encontrado, esse velho gordo, de cabelos brancos estacados e um ar de aflição que faz riso e piedade. Chora, depois caminha esbaforido. Parece que vai gritar, de cabelos brancos estacados, e, de súbito, baixinho, pede-vos esmola. Tem um riso de humilhado e o aspecto duma bola de sebo de cabelos brancos estacados. É o Gebo. É gebo por ser pícaro e roto e por a desgraça o ter calcado aos pés até o tornar ridículo.

Triste existência sem ódio e sem gritos. A vida não na entende e recebe cada empurrão com o ar espantado e aflito de quem não compreende. Que mal fizera? que mal fizera? Pois a desgraça faz rir? o sofrimento faz rir?

E em torno as bocas escancaram-se, ao verem-no gordo, pedinchão e grotesco.

Há seres que nascem com esta sina – amargar a vida. Tudo lhe corre torto, até as coisas mais simples, as coisas que para os outros nem sequer existem. Em que hora aziaga encontrou a má sorte que nunca mais o deixou? A desgraça escarrancha-se no pescoço de certos homens. E é para sempre, para toda a vida! Nunca mais os larga. Viera a quebra, aflições ainda mais negras que o coração dos outros. Enganavam-no, com a alegria de o verem rebaixado e perdido, empurrão daqui, empurrão dali, aos tombos por esse mundo. E ele punha-se a olhar para a desgraça, atarantado e estúpido. Que mal fizera para sofrer?

E mesmo a chorar, a sua máscara, de cabelos brancos estacados, fazia rir.

Era destas criaturas a quem um montão de desgraças torna ainda mais ridículas: a ruína, a miséria, e a fome. Enlameado pela vida fora, resignado e chorão, ele aí vai...

– O Gebo!

E todos se riam ao vê-lo chorar de aflição. Diziam uns: – Que não fosse tolo! – E os pobres, a quem tanta vez valera, gostavam de o ver calcado como a terra dos caminhos.

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 23

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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