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Capítulo 7: VI - Filosofia do Gabiru!

Página 49
VI - Filosofia do Gabiru!

É que tu acreditas na imortalidade da alma? Bem fundo, bem arreigado?

Tenho horas em que creio: é uma esperança, um raio de luz entrando num túmulo vazio pela junta abalada duma pedra. Porque crer? porque não crer? Teorias, palavras... No íntimo, porém, sou materialista como toda a gente. Dormir na terra funda e gorda é bom – dormir para sempre. Ir ser árvore, luz, detrito, correr nas veias da terra, e quase consolador – excelente sono sem sonhos, depois da lide canseirosa dum dia.

Na primavera quase sempre sou materialista, no inverno idealista e com a mesma sinceridade, quase com ferocidade.

Ser só, sem amigos, sem apertos de mão, sem conhecidos, ser só e livre, que sonho!...

Ser só por cobardia, para não ter este aguilhão da vaidade a espicaçar-me: – Então tu não fazes, e este, aquele, o diabo, fizeram! – Ser só para sonhar e para ver este espetáculo único – a natureza; para passar os meus dias vendo as transformações duma daquelas árvores que daqui contemplo!...

Quando me fecho e estou só, sou tão diferente!...

Como o homem é desconhecido até de si próprio, porque o tempo passa, vem a morte e ele não esteve sozinho! Se estou só vêm falar-me vozes – eu mesmo – mas com que palavras únicas! Os seres de que sou composto, se me habituo à solidão, nos primeiros tempos balbuciam, mas depois falam! pregam!...

Tenho a certeza de que fui árvore e é por isso que tanto as amo.

Há livros que falam baixinho, há livros que falam alto. Uns têm por si o encanto, outros a força. Às vezes as palavras murmuradas impressionam mais: passado tempo ainda elas acordam em nós fibras adormecidas.

Porque é que a água, até o mais humilde charco, atrai e faz sonhar os homens contemplativos?

Quanto mais desprezo o homem, mais amo a natureza.

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 49

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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