As memórias de Sherlock Holmes - Cap. 10: O Tratado Naval Pág. 226 / 274

O contínuo e a mulher haviam sido interrogados de todas as formas, sem que se fizesse qualquer luz sobre o assunto.

As suspeitas da polícia recaíram então sobre o jovem Gorot, que, como o senhor se deve lembrar, ficara no escritório para um serviço extraordinário, naquela noite. A sua permanência ali e o seu nome francês eram realmente os dois únicos pontos que podiam levantar suspeitas. Mas o que é verdade é que eu só começara a trabalhar depois de ele ter saído. A família dele é de origem huguenote e, por simpatia e tradição, tão inglesa como o senhor e eu. Nada se descobriu que o implicasse e, assim, desistiu-se do caso. Apelo agora para si, Sr. Holmes, como a minha última esperança. Se o senhor me desiludir, a minha honra e a minha posição ficarão, para sempre, perdidas.

O doente mergulhou nas almofadas, esgotado pela longa narrativa e a enfermeira ministrou-lhe um estimulante. Em silêncio, Holmes recostou-se na cadeira, os olhos fechados, numa atitude que para um estranho poderia significar distracção, mas que eu reconhecia ser de profunda meditação.

- A sua narrativa foi tão explícita - disse por fim - que poucas perguntas me restam fazer. Mas há uma muito importante. Contou porventura a alguém que tinha esse trabalho entre mãos?

- A ninguém.

- Nem a Miss Harrison, por exemplo?

- Não, não voltei a Woking entre receber a ordem e realizar o trabalho.

- Nenhum dos seus familiares foi, por acaso, visitá-lo?

- Nenhum.

- Algum deles conhecia o percurso para o seu gabinete?

- Sim, todos conheciam.

- Mas, é claro, se não falou a ninguém a respeito desse tratado, todas estas perguntas são inúteis.

- Eu nada disse, na verdade.

- Sabe alguma coisa do contínuo?

- Nada, a não ser que foi militar.





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