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Capítulo 21: XX - A outra primavera

Página 122
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– Mas foi a Noite então?...

– A Noite. Uma primavera negra, feita de emoção e de noite. Eles só deitam flor à noite e só podem sonhar à noite.

– São afinal, é certo, sonhos. Uns parecem estátuas vivas, outros são disformes...

– Eu tenho visto. É uma amálgama singular.

Criaturas de fogo, outras de crime. Di-las-íeis revolvidas, homens e sonhos misturados, um rio que tudo acarrete...

– O que eles sonhariam para chegar a materializar!

– De cada canto surgem. É inesperado e imprevisto.

E dos sítios mais negros é que eles irrompem em brasa.

Ontem vi um que parecia uma flor – branco, todo branco ou de luar gelado...

– E falam!

– Falam, pregam! Ouve-lhe os gritos?

Era na realidade uma mistura de sonho e vida. O bairro leproso estremecia. O Prédio, queria ele própria criar. O rio subterrâneo estropia cóleras, engrossara, rompera para a luz. E a Árvore imensa enchia o mundo.

Não era uma árvore como as outras, cheias de frescura e rumores – uma construção viva, com pernadas e folhas que se agitam, um gigante forte e simples. A Árvore era enorme e só dor, esbranquiçada e só dor. E aquela dor materializada e de pé, chamava todos os desgraçados, atraía-os de muito longe até ao fundo do saguão, em frente do hospital de pedra, compacto, e monstruoso.

Noite revolvida até às entranhas, fisionomias revolvidas até ao âmago – espectros de ladrões, de prostitutas e de pobres... À roda a cidade confusa e indistinta, léguas de pedra uniforme, e para lá mais pedra aglomerada. – A cidade era odiosa ou a vida é que era odiosa?

Falaram baixo. Depois calaram-se... A Árvore vibrava toda sensibilidade, duma vida só dor, duma vida irreal e estranha – só dor...

Silêncio. E eles no saguão imundo viram primeiro (todos encolhidos, e encostados uns aos outros) uma paisagem ao luar.

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pág. 122 (Capítulo 21)

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 122

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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