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Capítulo 24: XXIII - A Árvore

Página 136
Toda a lua se desfaz em luar e, no silêncio brando, vêem-se da trapeira os montes, o mar e as árvores, com formas de sonho.

– Pobre de ti! – diz por fim o filósofo. – Tu és a terra, tu és a terra a falar... Tu és só terra. Eu não vivi?

Tu és como a forja apagada e eu não, eu não, eu ardo!...

Olha! Olha!...

Mostrava-lhe os montes, o rio, os pinheiros transformados ao luar.

– Não, não quero ver. Isto tira a força à gente.

– Olha! olha!

Mostrava-lhe, esguio, e parecendo um D. Quixote banhado de luar, um sonho que o outro não podia ver...

– Não quero... Ouve. Se uma criança tem de vir a ser como as mulheres da viela não era melhor morrer?

– Talvez.

– Não é isso que te pergunto. Não era melhor morrer?

– Não sei.

O ladrão ficou um minuto a olhá-lo calado, e depois, de repente, abalou.

Foi esta noite! foi esta noite! Há dias em que eu sinto como uma torrente impetuosa que vem do outro lado do Hospital. As pedras estremecem impelidas. Há como uma ligação entre a Árvore e aquelas pedras. Os seus esgalhos esbranquiçados e esguios cresceram mais e ontem à tarde eu vi que a Árvore já não era a mesma.

Foi quando, como agora acontece desde março, o sol lhe deixou poeira de oiro nos galhos. Vai-se o sol embora e ainda – vou jurá-lo – lhe fica sol nos ramos. Ontem à tarde parecia transformada, diríeis haver nela não sei o que de extraordinário, de irreal e de estranho – nessa Árvore só dor. Pus-me a vê-la tronco por tronco, depois as pernadas e os raminhos e enfim descobri perdido, quase sumido, um botão tão miúdo, tão ténue... Qualquer sopro do vento levá-lo-ia para sempre.

A noite estremecia despedaçada. Uma névoa viva, torrente luminosa, arrastando consigo no alvorecer o primeiro hálito dos montes e das águas acordadas, humedecia as arestas dos muros, o granito da cidade ainda em bloco, meia sumida na noite.

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 136

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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