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Capítulo 8: VII - Primavera

Página 53
Elas existem mais pelo que lhes damos de nós mesmos do que pelo que na realidade são. De saudade, de sonho, de lodo e piedade, construíra uma figurinha ofendida e triste, andando no mundo aos tombos, sem pão e sem abrigo. A ele que passara a vida inteira a atear um brasido, cabia-lhe em sorte a Mouca, escárnio de ladrões e de soldados.

A casa das mulheres de dia é fúnebre, mas de noite, à luz do petróleo que esvoaça e deixa tudo numa meia tinta de aflição – candeeiros partidos, luzes fumarentas – lembra um circo de desgraça, onde palhaçadas trágicas façam gargalhar e onde os ladrões e as mulheres enfarinhadas representem a sério vícios e crimes, com risos e choros à mistura, para que o público que paga se possa rir. Vem um Velho, que sem falar gargalha toda a noite ao vê-las maltratadas, e o Morto, pálido soturno, com um laivo na cara. Tem as mãos ósseas e enormes sempre frias e as mulheres temem-no pela sua crueldade e pelo sorriso trágico. Despreza a dor e os gritos.

Sente-se que dele não há a esperar piedade. Só a Mouca se atreve a resistir-lhe. Aparecem outros e toda a noite se ouvem insultos, choros, gargalhadas.

Cada um ali arranca a máscara, transforma-se, fica um ser nu: as feições endurecem, o riso é atroz. O homem tem vontade de ouvir gritos. Paga, maltrata. É lodo, não há que ter piedade. E as mulheres cantam sempre na mesma toada triste e soluçante... Nenhuma fala do passado, com medo ao escárnio, mas guardam-no para si, sem o esquecerem. A história é idêntica e amassada em lágrimas. Elas sabem que nasceram para sofrer e resignam-se: o esgoto é necessário. Tudo na vida se alimenta de gritos, como as raízes na terra se sustentam de água. Enganam-nas e não se queixam. É o fado. Não têm ódio a quem as iludiu: ao contrário, não esquecem esse fio de sonho espezinhado, que ainda sentem correr na vida, longínquo e triste, quase a sumir-se de todo.

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 53

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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