Um Estudo em Escarlate - Cap. 9: 2 - A Flor de Utá Pág. 77 / 127

A pequena Lucy Ferrier foi aceite com bastante afabilidade na carroça do ancião Stangerson, um abrigo que ela partilhava com as três mulheres do mórmone e com o filho, um rapaz de doze anos, obstinado e atrevido. Tendo-se recomposto, com a elasticidade da infância, do choque provocado pela morte da mãe, logo se tornou a criança preferida e se resignou a esta nova vida na casa móvel coberta de Iona. Entretanto, tendo-se Ferrier recomposto das privações que sofrera, distinguiu-se como guia indispensável e caçador infatigável. Ganhou em tão pouco tempo a estima dos seus novos companheiros que, quando chegaram ao fim das suas viagens, estavam todos de acordo em que lhe deveria ser dada uma terra tão grande e fértil como a de qualquer dos colonos, à excepção do próprio Young, Stangerson, Kemball, Jonhnston e Drebber, que eram os quatro principais anciãos.

Na quinta assim adquirida, John Ferrier construiu uma sólida casa de cepos, que recebeu tantos aumentos nos anos seguintes que se transformou numa elegante habitação. Era um homem de espírito prático, arguto nos negócios e habilidoso de mãos. A sua constituição de ferro permitia-lhe trabalhar de manhã à noite para melhorar e cultivar as terras. Por este motivo, aconteceu que a quinta e tudo o que lhe pertencia prosperava muito. Em três anos estava em melhor situação financeira do que os seus vizinhos, em seis vivia bem, em nove estava rico e em doze não havia meia dúzia de homens em toda a cidade de Salt Lake que se pudesse comparar com ele. Desde o grande lago às distantes montanhas Wahsatch não havia nome mais conhecido do que o de John Ferrier.

Só havia uma coisa em que ele feria as susceptibilidades dos que professavam a mesma religião. Nenhum argumento ou persuasão o conseguiram induzir a implantar uma casa de mulheres à maneira dos seus companheiros. Nunca deu uma justificação para esta recusa persistente, mas sentia-se satisfeito por se manter fiel à sua resolução. Havia alguns que o acusavam de indiferença para com a religião adoptada, e outros que a atribuíam à ganância por dinheiro e relutância em incorrer em despesas.





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