Robinson Crusoe - Cap. 10: Capítulo 10 Pág. 188 / 241

Quando ficou tudo pronto tive de ensinar a Sexta-Feira a manobra da piroga, pois embora soubesse dirigi-la muito bem com os remos, ignorava em absoluto o manejo de uma vela e de um leme. Ficou assombrado ao ver-me governar a canoa e fazê-la virar de bordo por meio da barra e mudar de rumo trocando as velas em todos os sentidos; não conseguia refazer-se da surpresa.

Não obstante, tudo se lhe tornou familiar em pouco tempo, e deu um excelente marinheiro; só não conseguia fazê-lo compreender a bússola, mas como naquelas paragens o céu mal se cobre, e quase nunca há nevoeiro, ela era pouco precisa. Para nos orientarmos tínhamos as estrelas durante a noite, e a terra durante o dia, excepto na estação das chuvas; nessa altura, porém, ninguém pensava em viajar, nem por mar nem por terra.

Tinha já entrado no meu vigésimo sétimo ano de desterro na ilha, embora não deva englobar sob este nome os três últimos que passara com Sexta-Feira, gozando outra vida bem diferente da anterior à sua vinda. Celebrei o aniversário do meu desembarque com o mesmo reconhecimento para com Deus pela sua misericórdia para comigo. Na verdade, se desde o princípio fora agradecido, quantas graças não havia de dar agora à Providência, que me dispensava tantas novas provas da sua solicitude e me permitia confiar na minha liberdade! Porque estava intimamente convencido do que esta liberdade se aproximava, e de que não passaria mais um ano na ilha. Mesmo assim, não descurava os meus trabalhos habituais: arava, semeava e plantava como de costume; colhi e sequei as uvas; enfim, não deixei de me abastecer com tudo quanto era necessário, como antes fazia.

Chegada a estação chuvosa, já não necessitei de sair com tanta frequência. Tínhamos tomado todas as precauções para que o nosso novo barco estivesse o mais seguro possível, e havíamo-lo conduzido para a enseada, onde, como disse, desembarcara com as jangadas.





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