Procurar livros:
    Procurar
Procurar livro na nossa biblioteca
 
 
Procurar autor
   
Procura por autor
 
marcador
  • Sem marcador definido
Marcador
 
 
 
Navegar

Capítulo 18: XVII - História do Gebo

Página 110
Tinham-lhe posto essa alcunha – o Gebo, e perguntavam-lhe coisas obscenas para se rirem:

– Hein, diz lá, ó Gebo, então tu não tens uma filha?

E ele logo com um riso no olhar:

– Tenho, sim, uma filha, a minha filha...

– E que tal, hein, boas pernas, diz, boas pernas?

Humilde, coçado, à espera da esmola, sem forças para protestar, respondia com um sorriso e lágrimas à mistura:

– Boas pernas... boas pernas...

É neste momento da existência que ele aceita a desgraça. O velho não entende e aceita. Talvez já não pergunte o que é a vida. A desgraça usou-o até ao ponto de aceitar tudo. Estão unidos ele e a desgraça. Já não há nada que espante esse homem gordo que só tem um desejo – dormir, que dorme de cabelos brancos estacados.

O Gebo transformou-se numa figura, não pela declamação nem pelo aspecto, mas por dizer que sim à desgraça, por aceitar totalmente a vida e a dor. Lá vai levado, enlameado e de rastos, a chorar. Ilusões? já as não tinha, se ilusões não servem senão para se sofrer.

Quando viva, a mulher era quem ainda arcava com a sorte. Esbracejava. E juntos aquecia-os no mesmo lar, com pedaços de sonho, como quem, depois de repartir os últimos farrapos, agasalha com a própria alma. Um sonho cai por terra? Estreia-se outro sonho. Embrulhados no mesmo cobertor, ela, seca e nervosa, pregava-lhes que ainda podiam ser felizes, acalentava-os e, todos três iludidos, ficavam naquela negrura e desespero, todos três a cismar.

Mas agora nem isso... Enregelados não apelavam para a ilusão. Ele chorava e Sofia, alheada e triste, cuidava, ambos sem palavras que dissessem. Oh seria tão bom morrer, descansar, dormir por uma vez sem mais acordar!... Mas, aguilhoado e ridículo, aquele homem pícaro apegava-se como um desesperado à vida.

<< Página Anterior

pág. 110 (Capítulo 18)

Página Seguinte >>

anúncio
Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 110

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
Links Relacionados
 
Artigos: Porque lemos literatura | O Ensaio na literatura | O primeiro texto da língua portuguesa 
© 2010 Ciberforma Informática. Todos os direitos reservados. Contacto | Política de privacidade | Mapa do Site