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Capítulo 18: XVII - História do Gebo

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Aquilo terminava por lágrimas e por o velho perguntar, perdido de fome, todo o dia na negra faina:

– E agora como há-de ser?

A mãe tinha escondido alguns vinténs tirados à boca e em torno do pão, esquecidos, lá se deitavam a falar da sua miséria.

De forma que Sofia nada sabia da vida, e assim fora crescendo sem queixas, resignada e pura. A Deus rezava todas as noites pela vida do velho, pela saúde daquele ser ofegante e grotesco, que passava horas e horas a chorar.

– ...O pão nosso de cada dia nos dai hoje...

– Filha, que há-de ser de ti!

Engordava, não se podia mexer. Faltavam-lhe de todo as forças. Estendia a mão na rua como os mendigos.

Um dia foi preso, e expulsavam-no das lojas. A ideia da filha abandonada e com fome alucinava-o:

– Eu já não posso mais! eu já não posso mais!...

Os dias passaram-se desesperados, idênticos, ferozes. Todos os dias se pareciam, como a desgraça se assemelha à desgraça. Até que caiu por terra, e durante a noite inteira correu na mansarda aquele ruído de lágrimas baixinho e monótono; toda a noite infinita o Gebo chorou prostrado. Quis tentar, quis ainda erguer-se, mas a desgraça havia-o enfim aniquilado: engordarão, exaurira-o e pregara-o para sempre a chorar num colchão de trapos.

Então Sofia, que um dia e uma noite o viu chorar sem tréguas de olhos postos nela; que outro dia e outra noite, sem gritos nem frases, o viu todo branco e com fome, de olhos aguados, no mesmo choro de aflição – alheada, mais alta, desceu as escadas e entrou em casa das prostitutas. Todas as tardes descia e tornava altas horas, com pão para o Gebo, que só lagrimejava, prostrado, de muito longe, dum mundo de alucinação e de cabelos estacados.

Oh este cantar das mulheres, esta toada em farrapos, é a voz dos desgraçados, dos pobres, dos que não têm pão, nem felicidade na terra, e vem de muito longe, dum mundo de alucinação e de dor.

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 112

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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