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Capítulo 20: XIX - A Mouca

Página 119
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As prostitutas, que dantes odiavam Sofia, chamam-lhe agora menina, depois que a vêem sua igual. Repartem com ela o pão que ganham, e ao vê-la caída, chorando, ficam aflitas, porque não sabem consolá-la.

– Mais lhe valia deitar-se a afogar – diz uma.

– Isto aqui é uma vida de cão.

– Olhai que ter fome!... Sempre a fome é negra – conclui outra.

Só a Mouca a odeia. Ela que foi sempre a mais maltratada, maltrata agora. Se pudesse, pisá-la-ia aos pés.

Ela, de quem todos se riam com escárnio, cuspida pelos soldados, quer fazer sofrer. Não há ser mais degradado, não porque seja má, mas porque é como todas as criaturas que o homem cria para o gozo.

A princípio todas faziam sofrer Sofia. Tinham vontade de a rebaixar, de a verem chorar lágrimas de aflição para a igualarem.

– Cá temos a menina!

– Quem no diria? Não falava a ninguém a mosquinha morta! E para aprender!

– Deixai-a!

– Deixai-a o quê? Ela é como as outras.

– Deixai a pobre, que não faz senão chorar. Vocês não têm coração.

– Também a gente sofre.

Riam-se, empurravam-na para os piores tratos, mas pouco e pouco, diante daquela dor silenciosa e profunda, calaram-se. Tratavam-na por menina. Uma queria penteá-la, outra ajudá-la. Só a Mouca lhe tinha o mesmo ódio.

– Olha lá, ó parida!

– É comigo que fala?

– Faz-te tola! acaba lá com esses ares de senhora.

Já estou farta. Tu aqui és tanto como eu, sabes?

– Sei – diz Sofia.

– Tu conheces-me? Olha se me conheces, senão ensino-te quem sou. Acabou-se! embirro com isso.

Pareces uma sonsinha... Tu falas?

Sofia olha-a silenciosa.

– Ah, tu não falas? Olhas pra mim com cara de escárnio? Não quero que olhes pra mim, não quero, ouviste? Ai, não falas? Toma!

E deu-lhe uma bofetada.

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pág. 119 (Capítulo 20)

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 119

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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