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Capítulo 3: II - O Gebo

Página 24
Qual é a razão por que a desgraça alheia consola a nossa própria desgraça, dizem-me?...

A tressuar, aflito, depois de espezinhado, ainda esse ser mole e gordo, aos quarenta anos, cria na vida como as árvores e as crianças crêem: assim no globo passam existências ignoradas de sofrimento e de bondade, que não deixam o mais simples vestígio, como os veios de água escondidos que são a vida da terra. Sempre a suar, quase sem saber gritar nem saber queixar-se, o Gebo tinha um coração ígneo.

Era casado e tinha esta felicidade: uma filha. Uma filha sempre prende a existência! uma filha pequenina sempre tem nas mãozinhas uma força!

Muito tempo mentira à mulher, que ia vivendo iludida. Ria o Gebo com o coração torcido, para que elas fossem felizes mais algumas horas – últimas horas tiradas à desgraça. Até que um dia sucumbiu:

– Eu não te queria dizer... Mas ó mulher! O mulher!...

– Que é? Que foi?

– Estamos perdidos, estamos perdidos...

– Perdidos?!

– Sim, estamos... E agora? Agora? Ninguém me vale, ninguém se importa. Tenho pedido, tenho andado...

e já não posso! Estamos perdidos, mulher!...

– Estamos perdidos?

– Sim...

– Tu é que tens a culpa, não tens mesmo finura nenhuma. Riem-se de ti. Todos te enganam e ainda por cima se riem de ti. Anda, vai!... Tu que queres? Que há-de ser de mim e da pequena? Nós temos culpa das tuas tolices, das tuas desgraças?...

– Não, mulher, não, bem sei...

– Anda!

E ele voltava, todo o dia corria esbaforido, até que uma noite a mulher viu-o entrar, sem chapéu, enlameado, exausto – e de cabelos brancos estacados. A ingratidão embranquecera-o. Era ao crepúsculo. Tombado, como uma bola de gordura, tremia abalado pela dor, monologando baixinho:

– Oh a minha filhinha!.

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 24

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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