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Capítulo 12: XI - Luísa e o morto

Página 75
Abandonava-lhe o pobre corpo macerado, cheirando a enfermaria, já vindo à terra com este destino amargo – ser explorada. Ele deixou-a logo e ela continuou a servi-los, com o mesmo sorriso, mais descorada e triste. Um dia acordou grávida e patroa pô-la na rua. Remexeu-lhe a trouxa e gritou:

– O que tu merecias era ir para a polícia.

Com um filho na barriga e a trouxa debaixo do braço pôs-se a andar pelas portas, despedida das casas logo que lhe viam o ventre, até que foi dar o rio pregava e o ladrão ria.

Calou-se. Só se ouvia o chapinhar da maré. Só o rio pregava e o ladrão ria.

Uma luzinha, que brilhava ao largo deixando na água um fio de oiro trémulo, de todo se sumira. Então o Morto, no silêncio e no negrume, começou:

– Tu que imaginas que é isto?

– Isto quê, senhor?

– A vida. Todos querem mas é enganar. Os ricos fazem mal aos pobres, os pobres roubam os ricos. Todos querem fazer chorar os mais.

– Todos?

– Todos. Eu mesmo posso-te agora matar, posso-te fazer o mal que quiser. Não grites, que é pior. Ninguém te acode.

– Eu não grito.

Deitou-lhe as mãos enormes e frias puxou-a para si para a olhar no escuro:

– A tua mãe botou-te fora, para não te criar, o teu patrão enganou-te. Tu que imaginas? E que podias fazer senão deixá-lo enganar-te? Que hás-de fazer? Hão-de enganar-te sempre e só te não desamparará...

– Quem? – perguntou ansiosa.

– A fome. Hás-de andar por aí até caíres de velha, aos pontapés e às voltas com a desgraça.

Agora vais ser minha... A desgraça é que pode tudo, ninguém no mundo tem mais força. Se tiveres fome, hão-de-se rir de ti e dar-te terra a comer.

– Ó senhor! senhor! Mas então para que me criaram no asilo? Era melhor terem-me deixado morrer. Eu não faço mal a ninguém.

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 75

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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