Procurar livros:
    Procurar
Procurar livro na nossa biblioteca
 
 
Procurar autor
   
Procura por autor
 
marcador
  • Sem marcador definido
Marcador
 
 
 
Navegar

Capítulo 15: XIV - O escárnio

Página 88

Sê sempre bom, porque a bondade eterniza o amor.

Os crimes da matéria pune-os a matéria, os crimes do espírito pune-os o espírito.

Já ouviste que as árvores, o mar e as pedras tivessem dúvidas ou tremessem de pavor?

Ver o sol, o universo, olhar, já é um prodigioso milagre. Mas tocar, compreender calhaus, almas, ter raízes em todas as estrelas, no céu e no oceano – é o portentoso sonho.

O homem arranca de si próprio universos de beleza.

O homem tem uma centelha de prodigiosa alma que erra no grande mar de sonho que vai espraiar-se de estrela a estrela e tudo enche, doirado e enorme, e que em si consubstancia o génio, a beleza, o amor. Logo que a matéria se dispersa, a imorredoura faísca volta ao atlântico donde tinha saído.

Criamos cada um de nós um universo de angústia ou de beleza, ressequido ou de fogo. São felizes os bons portanto. Há no entanto criaturas que vivem sem suspeitarem que o universo existe.» Às vezes nos mais simples factos encontra-se mistério, como num punhado de desprezível terra há uma força escondida. Parece inerte. Esperai, porém, que março a toque!... Assim esse pobre desajeitado, sempre tímido e vestido de negro, tinha uma existência feliz.

Na trapeira passava as horas a cismar nessa rapariga quase tísica, com um ar de máscara que vai gritar de aflição. A Mouca foi amada como as princesas lendárias, e esses amores entre um filósofo esfaimado e uma mulher da vida tinham não sei que enternecido interesse. Sobre os calhamaços do Gabiru alguém encontrou por vezes flores ressequidas e nessa primavera – caso único – o vento trouxe por cima dos telhados duas borboletas que vieram noivar no saguão.

Ele era feliz. Que importa ter-se fome, se se ama?

O amor e a fé não transformam o mundo até às suas mais profundas raízes? Quem diz que se não podem construir com aquelas nuvens esparsas marmóreos palácios ou estrofes de luar?

As suas teorias, as suas ideias ia-as tecendo e olhando a Árvore.

<< Página Anterior

pág. 88 (Capítulo 15)

Página Seguinte >>

anúncio
Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 88

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
Links Relacionados
 
Artigos: Porque lemos literatura | O Ensaio na literatura | O primeiro texto da língua portuguesa 
© 2010 Ciberforma Informática. Todos os direitos reservados. Contacto | Política de privacidade | Mapa do Site