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Capítulo 16: Capítulo 16

Página 134

A hora de amanhecer aproximava-se: o crepúsculo matutino alumiava frouxamente as margens de rio mal-assombrado, que corria turvo e caudal com as correntes do Inverno. Apertado entre ribas fragosas e escarpadas, sentia-se mugir ao longe com incessante ruído. A espaços, destorcendo-se em milhões de fios, despenhava-se das catadupas em fundos pegos, onde refervia, escumava e, golfando em olheirões, atirava-se maciço e atropelando-se a si mesmo, pelo seu leito de rochas, até de novo ruir e despedaçar-se no próximo despenhadeiro. Era o Sália, que de queda em queda rompia dentre as montanhas e se encaminhava para o mar Cantábrico. Perto ainda das suas fontes, o Estio via-o passar pobre e límpido, murmurando à sombra dos choupos e dos salgueiros, ora por meio das balsas e silvados, que se debruçavam, aqui e acolá, sobre a sua corrente, ora por entre penedias calvas ou córregos estéreis, onde em vão tentava, estrepitando, recordar-se do seu bramido do Inverno. Mas quando as águas do céu começavam nos fins do Outono a fustigar as faces pálidas dos cabeços, a ossada nua das serras, e a unir-se em torrente pelas gargantas e vales, ou quando o sol vivo e o ar tépido dum dia formoso derretiam as orlas da neve que pousava eterna nos picos inacessíveis das montanhas mais elevadas, o Sália precipitava-se como uma besta-fera raivosa e, impaciente na sua soberba, arrancava os penedos, aluía as raízes das árvores seculares, carreava as terras e rebramia com som medonho, até chegar às planícies, onde o solo o não comprimia e o deixava espraiar-se pelos pauis e juncais, correndo ao mar, onde, enfim, repousava, como um homem completamente ébrio que adormece, depois do bracejar e lidar da embriaguez.

Na margem direita do rio, que então passava grosso de cabedais por um dos vales que retalham as montanhas das Astúrias no seu pendor ocidental, viam-se ainda no princípio do oitavo século as ruínas de antigo castro ou arraial romano. Jaziam estas em uma espécie de promontório de rochas, pendurado sobre a veia de água e talhado quase a pique por todos os lados.

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Capa do livro Eurico, o Presbítero
Páginas: 186
Página atual: 134

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Capítulo 1 1
Capítulo 2 4
Capítulo 3 7
Capítulo 4 12
Capítulo 5 18
Capítulo 6 22
Capítulo 7 28
Capítulo 8 32
Capítulo 9 46
Capítulo 10 55
Capítulo 11 63
Capítulo 12 71
Capítulo 13 90
Capítulo 14 105
Capítulo 15 121
Capítulo 16 134
Capítulo 17 148
Capítulo 18 158
Capítulo 19 171
Capítulo 20 176
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