Procurar livros:
    Procurar
Procurar livro na nossa biblioteca
 
 
Procurar autor
   
Procura por autor
 
marcador
  • Sem marcador definido
Marcador
 
 
 
Navegar

Capítulo 25: XXIV - O ladrão e a filha

Página 141

– Agora.

Mas a criança olhou para ele e riu-se – e ele teve-lhe medo.

– Dorme!

A pequena pôs-se a balbuciar – ó pai! ó pai!... –a dizer as palavras desconexas e extraordinárias que dizem as crianças, e as obscenidades que ouvia ao Velho na viela quando lhe pegava ao colo. E o ladrão estremeceu abalado até às profundidades da vida.

– O pai! ó pai! – gritou ela de repente – o que é aquilo lá em cima?

E a pequena, que nunca tinha visto estrelas na viela trágica, apontou deslumbrada o céu.

– Estrelas.

– Ah estrelas! estrelas!... – E o monólogo infantil seguiu com estas palavras e encanto – com as palavras tão repetidas que têm sempre novidade e frescura nos bicos cor-de-rosa, como se a vida pela primeira vez acordasse sempre que uma criança fala, e palavras terríveis, que pertencem à vida trágica e que ela inconscientemente misturava às outras.

Por fim adormeceu na caverna do barco olhando para o céu. Mas a dormir metia-lhe tanto medo como acordada... Estendeu as mãos devagarinho e atou-lhe à cinta uma corda com a poita. A pequena mexeu, acordou, sorriu, abriu a boca para dizer pai, e caiu logo no sono inocente. E o ladrão ficou muito tempo quieto a olhar para ela.

A criança não podia continuar a viver. Diante dos olhos tinha sempre a boca desdentada do Velho e as figuras das mulheres dizendo obscenidades. Sabia que destino a esperava. A criança era o mal. Ele só teria sossego na terra quando a atirasse ao rio e a visse descer lá para o fundo, para muito fundo, longe da vida de dor e de tragédia.

Pela primeira vez sentia que cometera um crime contra uma coisa imensa e extraordinária, contra uma coisa imensa e invisível – sentia com horror que envenenara a vida. Era necessário matá-la... E ao mesmo tempo desabava sobre ele outro espanto sem existência real.

<< Página Anterior

pág. 141 (Capítulo 25)

Página Seguinte >>

anúncio
Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 141

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
Links Relacionados
 
Artigos: Porque lemos literatura | O Ensaio na literatura | O primeiro texto da língua portuguesa 
© 2010 Ciberforma Informática. Todos os direitos reservados. Contacto | Política de privacidade | Mapa do Site