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Capítulo 3: II - O Gebo

Página 25
.. E todos se riram de mim, todos!... Ninguém se importa. Quem quer saber da desgraça dos outros? Ai a minha filha!

Começou uma vida desorientada e feroz. Parecia que de todos os lados havia vozes a clamar, a escarnece-lo:

ó Gebo! ó Gebo! – Nunca mais houve paz na terra para ele: mesmo no lar tinha certos a toda a hora os ralhos da mulher desvairada e as lágrimas silenciosas da filha.

Oh essas horas em que olhara perdido em volta e só vira secura e risos! essas horas tinham-lhe deixado suor de aflição para o resto dos seus dias. Tudo se arrasara. E curvava-se sob as palavras da mulher, amachucado, sem forças para lutar, quebrado pelos desenganos e pela indiferença dos outros.

– E agora? Agora? – perguntava-lhe ela.

E ele caído:

– Agora não sei... Agora morremos todos à fome.

Batera em vão a todas as portas, aniquilado, sem ideias e sem forças. Só sabia chorar, mole e grotesco, enquanto a mulher, que a desgraça secara, lhe atirava impropérios, gritos:

– Mas levanta-te! procura! salva-nos!

Anda, Gebo! E ele lá saía, tornava aos amigos, pedinchão, desnorteado, atrás de empréstimos, de demoras, trocando as palavras e desatando de súbito a esbracejar com gritos e soluços.

Deparo às vezes na rua com estes velhos falando só, encostados às paredes, com o casaco no fio. São os velhos pobres, os velhos que chegam ao fim da vida, com olhos de pasmo, sem terem compreendido a vida e habituados à desgraça. E comparo-os com os velhos ricos que passam por mim nos seus carros de guerra, imponentes e duros, como quem avança sentado sobre os depósitos à ordem no banco. A vida acabou de esculpir estas figuras no ponto em que vão morrer. Só mais alguns golpes de escopro, duas ou três marteladas de cinzel e a obra está concluída.

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 25

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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