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Capítulo 3: II - O Gebo

Página 26
.. Nuns o olhar é directo, os outros mal se atrevem a fitar-nos: têm medo. Aquela boca é imperiosa e habituada a mandar; estes nem sabem falar senão quando estão sozinhos, em monólogos pueris que só acabam no túmulo, em monólogos infindáveis de dor, de isolamento, de desgraça. Até pelas mãos se distinguem – pelas mãos fortes e grossas – pelas mãos magras e exangues.

Há pobres duma decência que faz frio, de pessoas que querem manter certa aparência, e têm fome aos setenta anos, há-os infantis, há-os que se põem a olhar para a gente com a boca a tremer, como se pedissem desculpa do seu sonho e da sua humildade. Os ricos ocupam um lugar definitivo e inabalável na existência; os pobres fazem-se mais pequenos para não ocuparem lugar.

É o momento da vida em que já não se espera e está tudo julgado, tanto para os que passam nos autos, reluzentes como ídolos, como para os que se escoam pelas paredes com um embrulho debaixo do braço. Todos caminham para a morte, altivos e quase desumanos diante da eternidade, ou resignados gemendo baixinho, como quem cumpriu a vida e aceita a dor.

Heis-de tê-lo encontrado, esse velho de cabelos brancos estacados, aos empurrões na vida e com um ar de aflição que faz riso e piedade.

– Ó Gebo!

– Anh?

– Conta!

E ele logo, em palavras rotas, precipitadas, bebendo as lágrimas:

– O Senhor!... Tanto tenho andado e tanto tenho sofrido! Quanto mais faço, pior, inda é pior... E já não posso mais... Acabou-se! Só Deus sabe pelo que tenho passado, as desgraças que tenho rapado e as aflições, para arranjar ao menos o triste pedaço de pão para a boca... O pior é delas.

O meu coração estala, tanto tenho sofrido. Trago a noite cá dentro. Que se lhe há-de fazer? Curtir a desgraça. Anh? Tenho pena de ter sido honrado.

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 26

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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