Procurar livros:
    Procurar
Procurar livro na nossa biblioteca
 
 
Procurar autor
   
Procura por autor
 
marcador
  • Sem marcador definido
Marcador
 
 
 
Navegar

Capítulo 9: VIII - Memórias de Luísa

Página 61
Livrá-las-eis do Asilo, da caridade, da vida.

No dormitório tudo era regular, branco e monótono, e, apesar de branco, fúnebre. O sol, que entrava pelas janelinhas, abertas numa muralha de prisão, era pálido e, mesmo de verão, parecia um sol de inverno; as camas, todas de branco, alinhavam-se encostadas às paredes caiadas e nuas; só no fundo, por cima da cama da Irmã, um Cristo de louça azul manchava aquela brancura.

O recreio não era na cerca do convento. Brincávamos sem barulho no claustro. Parece que tinham medo de nos mostrar árvores e sombras. O claustro...

Por cima via-se sempre, engastado no beiral, um rectângulo do céu, e a sombra geométrica estendia-se cá em baixo. Dum lado era sempre frio e húmido: as paredes tinham musgo. Ao meio do claustro um golfinho de pedra deitava gota a gota, pelos dentes cariados, um fio de água frígida. De tudo aquilo saía uma paz transida de sepulcro.

Só andorinhas cortavam em cima o céu, mas duma vez que em março vieram, afadigadas e chilreando, fazer ninho no beiral, as religiosas deitaram-lhos abaixo.

Destruí-los porquê? Os restos, farrapos de penugem quente, ternos diríeis, andaram por muito tempo no claustro. Passaram de mão em mão com alvoroço.

Algumas das asiladas cismavam, olhando-os: as mais pequeninas brincavam com eles. Uma disse:

– É um berço...

Destruí-los porquê? Para que não soubéssemos que as aves têm mãe e cuidam dos filhos? Para que não tivéssemos saudades das nossas, que não conhecêramos?

Para que ignorássemos?... Mas que candura a das Irmãs se era por isto! Nós pressentíamos, adivinhávamos tudo aquilo e quando uma das mais pequeninas explicou às que faziam roda: – É o berço dos passarinhos... – quantas de nós já tinham cismado num berço assim agasalhado e fofo!.

<< Página Anterior

pág. 61 (Capítulo 9)

Página Seguinte >>

anúncio
Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 61

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
Links Relacionados
 
Artigos: Porque lemos literatura | O Ensaio na literatura | O primeiro texto da língua portuguesa 
© 2010 Ciberforma Informática. Todos os direitos reservados. Contacto | Política de privacidade | Mapa do Site