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Capítulo 11: X - História do Gebo

Página 69
E mais fundo, mais fundo, assim se atascava na desgraça, gordo e pícaro, atarantado e pedinchão, com uma única ideia ao acordar: arranjar dinheiro para as mulheres comerem.

Já coçados e gastos, todos os dias diziam as mesmas palavras e passavam pelas mesmas aflições.

Transidos pelo frio interior, o verdadeiro frio, que só a miséria dá, encostados uns aos outros, raro se aqueciam ainda com um sonho vão. Fixavam o olhar, perdidos, absorvidos pela realidade, e a desgraça ali presente parecia rir-se. Gastavam as últimas roupas, faltavam já trapos usados e ele de cada vez mais gordo e mais mole.

Se acontecia rirem-se por futilidades, todos três juntos, aquele riso fazia mais aflição do que as próprias lágrimas.

Muitas noites não se acendia o lume e por fim todos três dormiam numa única enxerga.

A mulher já não ralhava: tombara, com o olhar desorientado e os dias gastos em monólogos desconexos.

Era o fim destas três figuras amarradas umas às outras pela desgraça – a figura que luta e espera, que espera sempre, numa discussão perpétua, que só na cova terá fim, seca de desespero e enorme; Sofia que não fala e se resigna, que não sabe queixar-se e esconde a sua dor; e o Gebo, amolgado pelos encontrões da vida, gordo, ridículo e de cabelos brancos estacados.

– Ó Gebo!

– Anh? anh?...

Viviam mais pobres que os pobres. Ele saía logo de manhã com a roupa no fio e as botas rotas. E a mulher ainda teimava:

– Homem, vê se te dão um emprego...

– Anh? Eu vejo! eu vejo!... Não te aflijas, mulher.

Um emprego! quem dá aí pão ao Gebo, amachucado e ridículo, envelhecido e trôpego, e que mal sabe escrever, de cego e tonto? Aguilhoado, todos os dias se levantava para a humilhação e para a correria atrás duns míseros cobres.

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 69

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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