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Capítulo 14: XIII - Essa rapariguinha

Página 84
Noite negra! noite negra! Arqueja o lume e o prédio sob a ventania arqueja.

Eis-me a cismar absorvido nas brasas, fascinado pelo seu escarlate, ou com os olhos postos nesse outro lume, o Hospital, que brilha na escuridão como um brasido de gritos.

A pedra de que o construíram di-la-eis transida.

Foram-no acrescentando: ao granito ligaram o granito, conforme a miséria cresceu. Arrancaram-no ao coração da terra. A ossada dos montes, abraçada pelas raízes, a fraga escondida que com a água viveu e em si a guardou, sentindo-a bulir no seu seio, minar para a luz, a pedra irmã da terra, sepultada na terra, veio ter este destino – abrigo de míseros.

Ao pé da pedra no saguão a árvore cresce, cada vez maior. As suas raízes vão sob a terra até ao Hospital e os seus braços doridos quase cobrem o prédio. Dum lado o Hospital, do outro a Árvore. Só eles prosperam.

Deita a árvore pernadas e a cada inverno o granito aumenta, qual outra árvore de pedra. Num corre seiva, no outro gritos. Também o hospital estende raízes por toda a cidade.

À custa de que esforços e de que dor chegou a Árvore a crescer? Nenhum destes desgraçados sabe o seu nome, ninguém sabe dizer para o que serve. A maior parte da gente na cidade de pedra nunca viu uma árvore...

E ela teimou. Subiu. Deitou ramos esbranquiçados para o sol e para a luz, como uma árvore espectro – uma árvore dorida, uma imensa árvore dorida e estranha. Suas raízes vão sugar no hospital. Com os anos enlaçaram o granito, pouco e pouco desconjuntaram-no, abriram fendas para mergulharem mais fundo na miséria humana.

E para lá? o que há para lá? Ao findar dos dias sinto um ar vivo que é a respiração dos montes adormecidos, batendo como ondas nos muros compactos do hospital, e ruídos, claridades, mistura de oiro e verde, gorgolejos de minas, chuva de sol e de água tombando.

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 84

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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