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Capítulo 14: XIII - Essa rapariguinha

Página 83

Sim, um doido. E nunca foi feliz. Veio um dia a catástrofe e incendiou-lhe a casa: mais tarde enganaram-no, mentiram-lhe. E não faltou a doença a escalavrá-lo brocando-lhe a cara e a tísica a romper-lhe o peito com tosse, nem a miséria a deprimi-lo. É por isso que ele, ao sacar das casas o caixão dos mortos como quem o arranca do peito dos que ficam, decerto ri por dentro, há-de rir consolado.

Apedrejam-no os garotos ao vê-lo passar para os enterros, fogem dele os vizinhos e só uma mulher, tão maltratada pelo destino como ele, fala ao gato-pingado.

Foi sempre assim: raquítica, triste e feia. A vida para ela tem sido sustentar primeiro a mulher que a tirou do asilo, depois o homem com quem casou, e que logo a deixou sozinha. Só com o gato-pingado conversa às vezes. Diz sempre as mesmas coisas e com que mesquinhas palavras! Mal sabe exprimir-se. Falam os dois como podem comunicar entre si as pedras, os seres que o acaso rola juntos no mesmo vagalhão da vida. Nem se queixam – e de que se hão-de queixar? Deus os sustenta na sua mão de pai.

– A gente é pobre – diz, ele.

– A gente é pobre – diz ela. – E às vezes passa fome.

– Passa.

– Quando a minha mãezinha era viva, eu rapava fome. Era preciso dar-lhe o sustento e eu mal o ganhava para mim. Ate que acabou de penar os seus trabalhos.

Tudo se acaba um dia.

– Pior do que isso é não ter ninguém. É pior do que a fome.

– É o pior de tudo.

– Que se há-de fazer?

– Sabe vossemecê? olhe que eu às vezes ponho-me a cismar porque é que a gente sofre...

E o vento ulula. No coração do inverno o enxurro leva as lágrimas que ensoparam a terra e a lufada arrasta os gemidos para um destino ignorado. Rola as lágrimas dos pobres, nalguma nuvem perdida, e gemidos, ais, palavras leva-as o vento consigo.

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 83

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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