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Capítulo 14: XIII - Essa rapariguinha

Página 85

Arfa a terra, incham os montes e vogam no ar aspirações de árvores, murmúrios de fontes, o hálito das plantas ignoradas. Oh há noites encharcadas de luar, em que se ouvem as lágrimas das noras paradas, caindo uma a uma na terra sequiosa, e se pressentem diálogos de sonho entre os grandes pinheiros bravios... E a Árvore fica indiferente.

Mas os desgraçados gritam, os pobres gemem – e a Árvore entontece, abalada até às raízes mais fundas...

Esperai! esperai!... A ventania redobra. Depois um silêncio prostrado, um silêncio pior do que a lufada, em que eu ouço o esforço que o mundo que povoa a escuridão faz para gritar. A treva arqueja e a última brasa reluz ainda no lar, cujo escarlate arqueja, arqueja e vai esmorecendo...

Grito! É sempre a mesma rapariguinha que ressurge, magra, pálida e triste, com um pobre vestido encharcado de chuva ou ensopado de lágrimas. Sorri para mim descalça, estendendo-me os braços. Ei-la! ei-la!...

Só uma brasa ainda vive no lume, misturando na escuridão uma poeira escarlate. E vai apagar-se!

extingue-se!...

Toda a vida é uma construção de gritos, a cada passo para a frente há sempre uma criatura espezinhada...

Que queres tu?

E uma coisa fútil a vida? Então porque não conseguimos apagar o vestígio dos nossos passos? porque não conseguimos esquecer? Esquecer! esquecer! Não, nunca mais se esquece a dor que se causa no mundo!

Passam-se os dias e os anos e a imagem ressurge diante dos meus olhos. Não me acusa. Eu é que me acuso. Todos os passos que damos no mundo tão irremediáveis, toda a dor ligada à dor, todos os mortos e os vivos fazem parte da mesma legião que me estende os braços. Tu que queres?...

Não é ódio que ela tem por mim, porque o seu sorriso, que eu sinto molhado de lágrimas, é triste mas resignado.

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pág. 85 (Capítulo 14)

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Capa do livro Os Pobres
Páginas: 158
Página atual: 85

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Carta-Prefácio 1
I - O enxurro 18
II - O Gebo 23
III - As mulheres 28
IV - O Gabiru 35
V - História do Gebo 42
VI - Filosofia do Gabiru! 49
VII - Primavera 52
VIII - Memórias de Luísa 59
IX - Filosofia do Gabiru 63
X - História do Gebo 67
XI - Luísa e o morto 73
XII - Filosofia do Gabiru 77
XIII - Essa rapariguinha 81
XIV - O escárnio 87
XV – Fala 94
XVI - O que é a vida? 97
XVII - História do Gebo 109
XVIII - O Gabiru treslê 114
XIX - A Mouca 118
XX - A outra primavera 121
XXI - A Morte 126
XXII - A filosofia do Gabiru 130
XXIII - A Árvore 134
XXIV - O ladrão e a filha 139
XXV - Natal dos pobres 143
XXI - Aí têm os senhores a natureza! 154
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