Madame Bovary - Cap. 18: X Pág. 189 / 382

- Como vai a sua menina? - perguntou de repente a Sr. Homais.

- Silêncio! - exclamou o marido, que escrevia algarismos no borrador.

- Por que não a trouxe consigo? - prosseguiu ela a meia voz.

- Chiu! Chiu! - fez Emma, apontando para o boticário.

Mas Binet, todo absorvido a conferir a soma, provavelmente não ouvira nada. Finalmente saiu. Então Emma, aliviada, soltou um grande suspiro. - Como respira fundo! - disse a Sr. Homais.

- Ah! É que está um pouco de calor - respondeu ela.

Trataram, pois, no dia seguinte, de organizar os seus encontros. Emma queria subornar a criada com um presente; mas seria melhor descobrir em Yonville uma casa discreta. Rodolphe prometeu procurar uma.

Durante todo o Inverno, três ou quatro vezes por semana, quando já era noite fechada, vinha ele ter ao jardim. Emma, de propósito tirara da cancela a chave, que Charles julgava haver-se perdido.

Para a avisar, Rodolphe atirava um punhado de areia contra as persianas. Ela erguia-se em sobressalto; mas às vezes era obrigada a esperar, porque Charles tinha a mania de ficar ao pé da lareira, numa conversa que parecia não ter fim. Emma mordia-se de impaciência. Se fosse possível, lançá-la-ia pela janela fora com os olhos. Por fim, começava a fazer a sua toilette de noite; depois pegava num livro e continuava a ler muito sossegadamente, como se a leitura a distraísse. Mas Charles, já na cama, chamava-a para se deitar.

- Vem, anda, Emma - dizia ele de vez em quando.

- Sim, já vou! - respondia ela.

Entretanto, como a luz das velas o incomodava, voltava-se para a parede e adormecia. Ela escapava-se, suspendendo a respiração, sorridente, palpitante, despida.

Rodolphe trazia um grande capote; envolvia-a completamente e, passando-lhe o braço em volta da cintura, sem falar, levava-a até ao fundo do jardim.





Os capítulos deste livro