Procurar livros:
    Procurar
Procurar livro na nossa biblioteca
 
 
Procurar autor
   
Procura por autor
 
marcador
  • Sem marcador definido
Marcador
 
 
 
Navegar

Capítulo 26: III

Página 282
III

Foram três dias plenos, deliciosos, esplêndidos, uma autêntica lua-de-mel.

Instalaram-se no Hotel de Bolonha, que ficava no cais. E ali viveram, de persianas fechadas, portas trancadas, rodeados de flores e de xaropes gelados, que lhes levavam logo de manhã.

À tarde metiam-se num barco coberto e iam jantar a uma ilha.

Era a hora a que se ouvia, perto dos estaleiros, bater o maço dos calafates contra os cascos dos navios. O fumo do alcatrão erguia-se por entre as árvores e viam-se no rio grandes manchas oleosas ondulando irregularmente sob a cor púrpura do sol, como placas de bronze florentino que flutuassem.

Desciam por entre os barcos amarrados, cujos longos cabos oblíquos roçavam a amurada da embarcação.

Os ruídos da cidade iam-se insensivelmente afastando, o rodar das carroças, o tumulto das vozes, o ladrar dos cães sobre as pontes dos navios. Ela desatava o chapéu e chegavam à sua ilha.

Entravam na sala baixa dum restaurante que tinha redes de pesca penduradas à porta. Comiam salmão frito, creme e cerejas. Deitavam-se na relva; iam beijar-se para debaixo dos álamos; e, como dois Robinsons, desejariam viver perpetuamente naquele lugar, que lhes parecia, na sua ventura, o sítio mais magnífico da Terra. Não era a primeira vez que viam árvores, céu azul, relva, que ouviam a água correr e a brisa soprar na folhagem; mas nunca tinham, sem dúvida, admirado tudo aquilo, como se a natureza não existisse antes, ou tivesse começado a ser bela só depois da satisfação dos seus desejos.

À noitinha regressavam. O barco seguia a borda das ilhas. Eles sentavam-se no fundo, ambos escondidos na sombra, sem falar. Os remos quadrados faziam barulho nos toleres de ferro; e isso, no silêncio, fazia o efeito da marcação de um metrónomo, enquanto à ré, a balsa, a reboque, produzia na água um marulhar doce e contínuo.

<< Página Anterior

pág. 282 (Capítulo 26)

Página Seguinte >>

anúncio
Capa do livro Madame Bovary
Páginas: 382
Página atual: 282

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
PRIMEIRA PARTE – I 1
II 12
III 22
IV 29
V 36
VI 40
VII 46
VIII 54
IX 66
SEGUNDA PARTE – I 79
II 90
III 97
IV 112
VI 126
VII 140
VIII 150
IX 175
X 186
XI 196
XII 209
XIII 224
XIV 234
XV 246
TERCEIRA PARTE – I 255
II 271
III 282
IV 285
V 289
VI 307
VII 325
VIII 339
IX 357
X 366
XI 373
Links Relacionados
 
Artigos: Porque lemos literatura | O Ensaio na literatura | O primeiro texto da língua portuguesa 
© 2010 Ciberforma Informática. Todos os direitos reservados. Contacto | Política de privacidade | Mapa do Site