Madame Bovary - Cap. 28: V Pág. 291 / 382

O amor avolumava-se-lhe diante do espaço e enchia-se de tumulto com rumores vagos que subiam. Extravasava sobre as praças, os passeios, as ruas, e a velha cidade normanda parecia aos seus olhos uma imensa capital, como uma Babilónia onde estivesse penetrando. Apoiava-se com ambas as mãos e debruçava-se do postigo para aspirar a brisa; os três cavalos galopavam, as pedras rangiam na lama, a diligência baloiçava e Hivert, de longe, gritava às carripanas que passavam na estrada, enquanto os burgueses que tinham passado a noite no Bois Guillaume desciam tranquilamente a encosta no seu carrinho de família.

Parava-se na barreira; Emma desafivelava os tamanquinhos, calçava ou tras luvas, compunha o xaile e, vinte passos mais adiante, descia da Andorinha.

A cidade despertava então. Os caixeiros, de boné, lavavam as fachadas das lojas e as mulheres que carregavam cestos apoiados nas ancas soltavam de quando em quando um sonoro pregão às esquinas das ruas. Emma caminhava de olhos no chão, rente às paredes, sorrindo de prazer por baixo do seu véu preto.

Por receio de ser vista, não seguia normalmente o caminho mais curto.

Embrenhava-se em ruelas escuras e chegava coberta de suor à entrada da Rue Nationale, perto da fonte que ali existe. É o bairro do teatro, dos botequins e das meretrizes. Muitas vezes passava perto dela uma carroça transportando qualquer decoração oscilante. Moços de avental espalhavam areia sobre o lajedo, entre arbustos verdes. Sentia-se o cheiro a absinto, a charuto e a ostras.

Voltava uma esquina; reconhecia-o logo pelos cabelos frisados que lhe saíam do chapéu.

Léon continuava a caminhar sobre o passeio. Ela seguia-o até ao hotel; ele subia, abria a porta e entrava... Que abraço!

Depois dos beijos precipitavam-se as palavras.





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