Madame Bovary - Cap. 7: VII Pág. 52 / 382

Punha-se o sol; o céu aparecia vermelho por entre os ramos e os troncos iguais das árvores plantadas em linha recta pareciam uma colunata escurecida destacando-se sobre um fundo de ouro; sentia-se tomada de medo, chamava Djali, voltava rapidamente para Tostes pela estrada principal, deixava-se cair numa poltrona e, durante toda a noite, não dizia uma palavra.

Entretanto, pelos fins de Setembro, aconteceu na sua vida uma coisa extraordinária: foi convidada a visitar, em Vaubyessard, a casa do marquês de Andervilliers.

Tendo sido secretário de Estado no tempo da Restauração, o marquês, procurando regressar à vida política, preparava com bastante antecipação a sua candidatura à Câmara dos Deputados. No Inverno fazia numerosas distribuições de lenha e, no Conselho Geral, reclamava sempre, com exaltação, estradas para o seu distrito. Tivera, por ocasião dos grandes calores, um abcesso na boca, do qual Charles o curara como que por milagre, dando-lhe um oportuno golpe de lanceta. O administrador enviado a Tostes para pagar a operação contou, à noite, que vira no quintalejo do médico umas cerejeiras soberbas. Ora as cerejeiras davam-se mal em Vaubyessard. O Sr. Marquês pediu algumas estacas a Bovary e tomou como dever ir agradecê-las pessoalmente. Reparou em Emma, achou-a elegante e notou que não cumprimentava como uma campónia; de modo que no castelo se não julgou ultrapassar os limites da condescendência, nem, por outro lado, cometer um despropósito, ao convidar o jovem casal.

Uma quarta-feira, às três horas, o Dr. e a Sr. Bovary subiram para a sua carruagem e foram a caminho de Vaubyessard, com uma grande mala amarrada na traseira e uma chapeleira na frente. Charles levava ainda uma caixa de cartão entre os joelhos.





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