Madame Bovary - Cap. 2: II Pág. 19 / 382

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E passou a detestá-la por instinto. A princípio procurou desabafar com alusões, mas Charles não as compreendeu; depois, com reflexões acidentais, que ele deixava passar com medo de alguma tempestade; finalmente, com apóstrofes à queima-roupa, a que ele não sabia responder. «Porque continuava ele a ir aos Bertaux, uma vez que o Sr. Rouault já estava curado e ainda não pagara a conta? Ah!, é porque havia lá uma pessoa que sabia conversar, uma bordadora, um espírito inteligente. Era disso que ele gostava: o que ele queria era meninas da cidade!» E prosseguia: «A filha do Tio Rouault, uma menina da cidade! Calha bem! O avô era pastor e eles têm um primo que esteve quase a ser julgado por uma atitude violenta, numa disputa. Não vale a pena tanta propaganda nem exibir-se ao domingo na igreja com um vestido de seda, como uma condessa. Pobre velho, que, se não fossem as couves do ano passado, havia de se ver bastante aflito para pagar os seus compromissosl»

Charles acabou por se cansar e deixou de ir aos Bertaux. Héloise fizera-o jurar que não voltaria lá, com a mão sobre o livro de missa, depois de muitos soluços e muitos beijos, numa grande explosão de amor. Ele então obedeceu; mas o arrojo do seu desejo protestou contra o servilismo da sua atitude e, por uma espécie de hipocrisia ingénua, entendeu que aquela proibição de a ver equivalia para ele a um direito de a amar. E depois a viúva era magra; tinha os dentes compridos; trazia em todas as estações um pequeno xaile preto cuja ponta lhe descia entre as omoplatas; o corpo, rígido, andava apertado em vestidos estreitos como bainhas e demasiado curtos, que lhe deixavam ver os tornozelos, com as fitas dos seus grandes sapatos cruzadas sobre meias cinzentas.

A mãe de Charles visitava-os de tempos a tempos; mas, ao fim de alguns dias, a nora parecia que a aguçava a seu jeito; e então, como duas facas, tratavam de o sacarificar com as suas reflexões e observações.





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