O Retrato de Ricardina - Cap. 24: CAPÍTULO XXIV - A NETA DO ABADE DE ESPINHO Pág. 149 / 178

.. Diga-me que é a irmã da minha mãe, que tanto se lembrou no fim da vida da sua desgraçada Ricardina.

- Se o seu pai aqui estivesse...

- O meu pai? Diga-me o nome do meu pai... - atalhou a viscondessa.

A filha de Clementina sorriu da dúvida de Matilde, e disse:

- O seu pai era meu primo, Luís Pimentel.

- Ah! - clamou a viscondessa como esclarecida por outro raio de luz - seu filho é também Pimentel.

- Pois, se ele é meu filho... - disse com maviosas lágrimas Ricardina.

- Ó Virgem do Céu! que alegria! que medo eu tenho de estar delirando! - exclamava a viscondessa, pondo as mãos, comprimindo a cabeça, dando grandes passos no abafado tapete.

A irmã de Eugénia, de novo abraçada na sobrinha, dizia-lhe que Deus lhe reservara para tarde as compensações das grandes saudades, que a torturaram vinte e dois anos.

- Eu soube, há muito tempo, que a minha irmã vivia - prosseguiu a mãe de Alexandre - , sabia, e não pude dizer-lhe: “Minha irmã, não me procures, não me respondas; mas sabe que eu ainda vivo, e estou aqui tão perto de ti...”

- E porque não lho disse, minha tia?!

- Porquê?... Eu lho direi, quando for tempo...

- Diga-mo já - suplicou a sobrinha.

- Pois sim... digo-lhe somente o que é indispensável dizer-se... porque o pai do meu filho... morreu... morreu infamado...

Os soluços embargaram-lhe a voz.

- Não me conte essa desgraça, que a minha mãe tudo me contou - disse Matilde.

- Morreu infamado... - disse vigorosamente Ricardina - mas penou inocente; porque o pai do meu filho não matou os lentes. Não os matou, minha sobrinha, juro-lho pela vida do meu Alexandre; mas teria sido enforcado se o seu avô e o meu pai o não mandassem matar. Deus perdoe ao homem sanguinário!... E perdoai-me vós, Senhor, se já o julgastes no Vosso divino juízo.





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