Procurar livros:
    Procurar
Procurar livro na nossa biblioteca
 
 
Procurar autor
   
Procura por autor
 
marcador
  • Sem marcador definido
Marcador
 
 
 
Navegar

Capítulo 4: CAPÍTULO IV - BERNARDO MONIZ

Página 19
CAPÍTULO IV - BERNARDO MONIZ

Da vida anterior do académico já D. Clementina Pimentel referiu o principal. O seu pai tinha oito filhos, e colhia escasso pão com que lhes pagasse o incessante labutar nos campos. Enviara três ao Brasil, onde tinha um irmão solteiro e sovina. Arranjara dois no Porto em trato de caixeiros. Mandou, com poucos recursos, Bernardo a Lisboa aprender pintura. Escolheu o mais robusto para o ajudar na lavoura, e a filha para a casar com um dote de duzentos mil réis, quando aparecesse um rapaz videiro, que tivesse do seu algumas leiras.

Já também sabem que o irmão sovina morreu atascado em ouro. Se não voasse à glória de repente, era opinião geral que deixaria os seus quinhentos contos a várias confrarias, sob condição de o baldearem do enxofre e betume do Inferno, e o levarem a encontrões de sufrágios pelo Céu dentro. Se a intenção o salvou, é questão de teologia moral em que não implico: salvados, com toda a certeza, sei eu que foi o irmão e os oito sobrinhos do defunto, se é profanamente lícito supor que quinhentos contos salvam do enxofre e betume deste mundo nove pessoas pobres.

Bernardo Moniz, avisado pelo pai, largou a custo os pincéis. A pintura dera-lhe pábulo ao devanear do espírito, por esferas mais altas e lúcidas que a do seu nascimento. Era a sua poesia e brasão. A soledade falava-lhe. O céu, as árvores, os ribeiros, os horizontes, o dilúculo da manhã e o arrebol da noite entendiam-no, davam-lhe em troca do amor as suavidades da contemplação. O jovem, às vezes, na praia de Belém, voltado ao mar, ou na quinta de Belas, emboscado nas ramagens, chorava; mas a soledade enviava-lhe as carícias das suas auras, o trilo das suas aves, e o acre balsâmico das suas moutas. E, depois, o pintor, à luz da noite, e nas madrugadas convidativas da inspiração, espelhava o coração na tela, reproduzindo quase sempre as poucas variantes do mesmo motivo.

<< Página Anterior

pág. 19 (Capítulo 4)

Página Seguinte >>

anúncio
Capa do livro O Retrato de Ricardina
Páginas: 178
Página atual: 19

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
CAPÍTULO I - O ABADE DE ESPINHO 1
CAPÍTULO II - UM AMIGO! 9
CAPÍTULO III – REAÇÕES 12
CAPÍTULO IV - BERNARDO MONIZ 19
CAPÍTULO V - MÃE E FILHA 25
CAPÍTULO VI – AGONIAS 32
CAPÍTULO VII - O QUE ELA PEDIA A JESUS 39
CAPÍTULO VIII - O BEM-FAZER DA MORTE 45
CAPÍTULO IX - ATÉ QUE ENFIM! 52
CAPÍTULO X - A SORTE 59
CAPÍTULO XI - MEMÓRIAS DOLOROSAS 66
CAPÍTULO XII – ESPERANÇAS 75
CAPÍTULO XIII - NORBERTO CALVO 80
CAPÍTULO XIV - PLANOS DO ABADE 88
CAPÍTULO XV - COMO O SENTIMENTO DA GRATIDÃO FEZ UM TIGRE 94
CAPÍTULO XVI - E O SOL NASCIA FORMOSO! 104
CAPÍTULO XVII - ENTRE A DEMÊNCIA E A MORTE 112
CAPÍTULO XVIII - O QUE FEZ A IGNORÂNCIA DO ESTILO FIGURADO 118
CAPÍTULO XIX - TÁBUA DE SALVAÇÃO 122
CAPÍTULO XX - OBRAS DO TEMPO 125
CAPÍTULO XXI - VANTAGENS DE CINCO PRÉMIOS 132
CAPÍTULO XXII - OS “DEZ-RÉIS” DA VISCONDESSA 136
CAPÍTULO XXIII - A RODA DA FORTUNA 141
CAPÍTULO XXIV - A NETA DO ABADE DE ESPINHO 147
CAPÍTULO XXV - O CORAÇÃO NÃO SE REGULA PELAS LEIS VISIGÓTICAS 156
CAPÍTULO XXVI - O REPATRIADO 161
CAPÍTULO XXVII - O RETRATO DE RICARDINA 166
CAPÍTULO XXVIII - ENFIM... 171
CAPÍTULO XXVIII – CONCLUSÃO 177
Links Relacionados
 
Artigos: Porque lemos literatura | O Ensaio na literatura | O primeiro texto da língua portuguesa 
© 2010 Ciberforma Informática. Todos os direitos reservados. Contacto | Política de privacidade | Mapa do Site