A Origem das Espécies - Cap. 2: CAPÍTULO I
VARIAÇÃO SOB DOMESTICAÇÃO Pág. 16 / 524

O facto de a experiência resultar ou não é pouco importante para o nosso argumento; pois a própria experiência altera as condições de vida. Se se pudesse mostrar que as nossas variedades domésticas manifestam uma forte tendência para a reversão - isto é, para perder os caracteres adquiridos, quando mantidas em condições inalteradas e num grupo de tamanho considerável, de modo que o entrecruzamento livre pudesse restringir, através da miscigenação, quaisquer desvios de estrutura ligeiros, nesse caso, concedo que nada poderíamos inferir a respeito das espécies a partir das variedades domésticas. Mas não temos o menor indício a favor desta perspectiva: seria contrário a toda a experiência afirmar que não podemos criar durante um número quase infinito de gerações os nossos cavalos de tiro e de corrida, o gado bovino cornilongo e cornicurto, as aves domésticas de diversas linhagens e os vegetais comestíveis. Posso acrescentar que, em estado de natureza, as condições de vida mudam, as variações e reversões de carácter ocorrem provavelmente; mas a selecção natural, como mais tarde será explicado, determinará até que ponto os novos caracteres que assim surgem serão preservados.

Quando olhamos para as variedades hereditárias ou raças dos nossos animais e plantas domésticos e os comparamos com espécies intimamente próximas, percebemos geralmente em cada variedade doméstica, como foi já observado, menor uniformidade de carácter do que em verdadeiras espécies. As variedades domésticas da mesma espécie, além disso, têm frequentemente um carácter um tanto monstruoso; quero com isto dizer que, embora difiram umas das outras, e das outras espécies do mesmo género, em diversos aspectos insignificantes, diferem frequentemente a um grau extremo numa determinada parte, não só quando comparadas entre si, mas mais especialmente quando comparadas com todas as espécies na natureza das quais são mais intimamente próximas.





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