A Origem das Espécies - Cap. 8: CAPÍTULO VII
INSTINTO Pág. 234 / 524

Se a antiga ave beneficiou deste hábito ocasional, ou se as crias se tornaram mais vigorosas por se tirar partido do instinto maternal equivocado de outra ave, em lugar do cuidado da sua própria mãe, que dificilmente não ficaria sobrecarregada por ter ovos e crias de idades diferentes ao mesmo tempo; então as aves antigas ou as crias acolhidas por outras aves obteriam uma vantagem. A analogia levar-me-ia a crer que as crias criadas desta maneira seriam propensas a seguir hereditariamente o hábito ocasional e aberrante da sua mãe e teriam por sua vez propensão a pôr os seus ovos nos ninhos de outras aves, conseguindo assim com êxito criar as suas crias. Creio que o estranho instinto do nosso cuco poderia ter sido criado, e que foi criado, através de um processo contínuo desta natureza. Posso acrescentar que, segundo o Dr. Gray e outros observadores, o cuco europeu não perdeu de todo em todo o seu amor maternal e o cuidado pela sua própria prole.

O hábito ocasional de as aves porem os seus ovos nos ninhos de outras aves, ou da mesma espécie ou de uma espécie distinta, não é muito incomum nos galináceos; e isto talvez explique a origem de um instinto singular no grupo próximo das avestruzes. Pois diversas avestruzes fêmea, pelo menos no caso da espécie americana, unem-se e põem primeiro alguns ovos num ninho e depois noutro; e estes ovos são chocados pelos machos. Este instinto provavelmente pode ser explicado pelo facto de as fêmeas porem um grande número de ovos; mas, como no caso do cuco, em intervalos de dois ou três dias. Contudo, este instinto da avestruz americana não foi ainda aperfeiçoado; pois um número surpreendente de ovos fica espalhado pelas planícies, pelo que num dia de caça recolhi nada menos do que 20 ovos perdidos e desperdiçados.





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