Madame Bovary - Cap. 12: III Pág. 109 / 382

Voltaram para Yonville seguindo a margem do rio. Durante a estação quente, a riba, alargando-se mais, deixava descobertos até à base os muros dos jardins, que tinham uma escada com alguns degraus para o rio. Este corria silencioso, rápido e frio à vista; viam-se na água compridas ervas, dobrando-se na direcção da corrente que as empurrava, parecendo cabeleiras verdes estendendo-se livremente na sua limpidez. Aqui e ali, na ponta dos juncos ou sobre uma folha de nenúfar, via-se pousar ou andar um insecto de patas finas. O sol atravessava com os seus raios as pequeninas bolhas azuis produzidas pelas ondas, que se sucediam, desfazendo-se; os velhos salgueiros despidos miravam na água a casca pardacenta; do outro até onde atingia a vista, a pradaria parecia deserta. Era a hora do jantar nas quintas; a jovem mulher e o seu companheiro ouviam apenas, enquanto andavam, a cadência dos próprios passos sobre a terra do caminho, palavras que diziam um ao outro e o roçagar do vestido de Emma, que um ruído sussurrante em volta dela.

Os muros dos quintais, com a sua crista de cacos de garrafas, estavam quentes como as vidraças duma estufa. Nas fendas dos tijolos tinham nascido, goivos; e, com a borda da sombrinha aberta, a Sr." Bovary, ao passar, desfazendo em poeira amarela algumas das suas flores já murchas, ou então algum ramo de madressilva ou clematite que pendia para fora e roçava momentaneamente pela seda, prendendo-se-lhe aos fios.

1am falando de uma companhia de bailarinos espanhóis anunciada para breve no teatro de Ruão.

- Vai lá vê-los? - perguntou ela.

- Se puder - responde o rapaz.

Não teriam nada mais a dizer um ao outro? Os seus olhos, contudo, bordavam duma conversação mais séria; e, enquanto se esforçavam a encontrar frases banais, ambos se sentiam invadidos pela mesma languidez; era uma espécie de murmúrio da alma, profundo, contínuo, que se repunha ao da voz.





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