Tudo tolice, como bem sabiam. Na verdade, não havia fuga. Não tinham intenção de executar nem o único plano praticável, o suicídio. Viver dia a dia, semana a semana, esticando um presente que não tinha futuro, parecia um instinto irresistível, como os nossos pulmões sempre procuram inspirar, enquanto existe ar.
Às vezes, falavam também de se dedicar à rebelião ativa contra o Partido, sem a menor noção de como dar o primeiro passo. Mesmo que a fabulosa Fraternidade existisse, havia o problema de encontrar o caminho dos seus quadros. Contou a Júlia a estranha intimidade que existia, ou parecia existir, entre ele e O'Brien, e o impulso que às vezes sentia, de comparecer simplesmente à presença de O'Brien, anunciar-se como inimigo do Partido e pedir-lhe auxílio. Curioso que isto não parecesse a Júlia nada de impossivelmente audacioso. Estava acostumada a julgar as pessoas pela fisionomia, e lhe parecia natural que Winston acreditasse e confiasse em O'Brien, por causa de uma simples olhada. Além do mais, parecia-lhe ponto pacífico que todo mundo, ou quase, odiava secretamente o Partido e haveria de quebrar suas leis, se acreditasse poder fazê-lo em segurança. Mas recusava-se a acreditar que existisse, ou pudesse existir, oposição generalizada, organizada. As caraminholas a respeito de Goldstein e o seu exército clandestino, dizia ela, não passavam de besteiras que o Partido inventara, para servir aos seus propósitos, e que os militantes fingiam crer. Vezes sem conta, em comícios do Partido e demonstrações espontâneas, ela gritara a plenos pulmões, pedindo a execução de gente cujos nomes nunca ouvira e em cujos supostos crimes não acreditava de modo algum. Quando se haviam realizado os julgamentos públicos, ocupara o seu lugar nos destacamentos da Liga da Juventude que circundavam o tribunal, de manhã à noite, entoando ritmicamente "Morte aos traidores!" Durante os Dois Minutos de ódio sempre superava os outros nos insultos a Goldstein.