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Capítulo 5: CAPÍTULO V - MÃE E FILHA

Página 26
algum dos seus rapazes de tentação matrimonial com alguma das filhas de coito danado! O possante lavrador, morigerado pela riqueza, já tinha dito que de má vontade daria o seu Bernardo à filha de Sebastião Pimentel, por ser prima das outras. Com quanta mais repugnância o não daria à filha de um abade!

Portanto, a saída única e desafogada em tal angústia era a fuga, enlace mais vulgar então do que hoje. Naquele tempo, o transferir judicialmente uma noiva da casa paterna para outra era coisa de costa acima, se os executores da lei tinham de tê-las com pais de sobrado alto e brasão na padieira da porta. A lei encolhia-se de medo; e as meninas, postas em extremidade, fugiam. Agora, esta coisa chamada rapto em obséquio ao pudor das voluntárias fugitivas é ave rara que vai passando à fénix dos fabulistas. Graças à pontualidade do juiz e do escrivão do bairro, hoje em dia, donzela que foge para casar não tem desculpa nenhuma, salvo se os seus espíritos romanescos a fazem desadorar vulgaridades.

Não assim a filha de Clementina Pimentel. Ricardina negou-se às insinuações de Bernardo, recusando anuir ao plano da fuga. Explicava-lhe o seu grande amor sem a ruim prova de algum acto indecoroso: queria morrer, amando-o; mas abençoada de Deus e da sua mãe. Iria para o convento, logo que o pai mandasse, e de lá; enquanto pudesse, lhe iria dando contas da sua vida.

Tão louvável resposta não demoveu Bernardo Moniz. As inferências que ele tirou alancearam-lhe coração e amor-próprio. Não há mais desconfiadas almas que as prevenidas contra o desdém da sua baixa origem. Desconfiadas e orgulhosas. Entrou-o logo a suspeita da má-fé e mal simulada astúcia de Ricardina. Arrependera-se, ou ofendera-se da proposta irreverente do plebeu; lembraram-lhe ou lembrou-se de o conhecer a guardar ovelhas; cedeu às instâncias do pai ou às seduções do primo; como quer que fosse, não o amava.

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pág. 26 (Capítulo 5)

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Capa do livro O Retrato de Ricardina
Páginas: 178
Página atual: 26

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
CAPÍTULO I - O ABADE DE ESPINHO 1
CAPÍTULO II - UM AMIGO! 9
CAPÍTULO III – REAÇÕES 12
CAPÍTULO IV - BERNARDO MONIZ 19
CAPÍTULO V - MÃE E FILHA 25
CAPÍTULO VI – AGONIAS 32
CAPÍTULO VII - O QUE ELA PEDIA A JESUS 39
CAPÍTULO VIII - O BEM-FAZER DA MORTE 45
CAPÍTULO IX - ATÉ QUE ENFIM! 52
CAPÍTULO X - A SORTE 59
CAPÍTULO XI - MEMÓRIAS DOLOROSAS 66
CAPÍTULO XII – ESPERANÇAS 75
CAPÍTULO XIII - NORBERTO CALVO 80
CAPÍTULO XIV - PLANOS DO ABADE 88
CAPÍTULO XV - COMO O SENTIMENTO DA GRATIDÃO FEZ UM TIGRE 94
CAPÍTULO XVI - E O SOL NASCIA FORMOSO! 104
CAPÍTULO XVII - ENTRE A DEMÊNCIA E A MORTE 112
CAPÍTULO XVIII - O QUE FEZ A IGNORÂNCIA DO ESTILO FIGURADO 118
CAPÍTULO XIX - TÁBUA DE SALVAÇÃO 122
CAPÍTULO XX - OBRAS DO TEMPO 125
CAPÍTULO XXI - VANTAGENS DE CINCO PRÉMIOS 132
CAPÍTULO XXII - OS “DEZ-RÉIS” DA VISCONDESSA 136
CAPÍTULO XXIII - A RODA DA FORTUNA 141
CAPÍTULO XXIV - A NETA DO ABADE DE ESPINHO 147
CAPÍTULO XXV - O CORAÇÃO NÃO SE REGULA PELAS LEIS VISIGÓTICAS 156
CAPÍTULO XXVI - O REPATRIADO 161
CAPÍTULO XXVII - O RETRATO DE RICARDINA 166
CAPÍTULO XXVIII - ENFIM... 171
CAPÍTULO XXVIII – CONCLUSÃO 177
 
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