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Capítulo 51: Píramo e Tisbe

Página 497

Na horta, em vez de couves, cenouras, rabanetes, ervilhas e melões, crescem grandes luzernas, única cultura reveladora de que aquele lugar abandonado ainda não está esquecido. Uma portinha baixa que dá para a rua projectada permite a entrada no recinto murado, que os seus arrendatários acabam de abandonar devido à sua esterilidade e que há oito dias, em vez de render 1,5%, como no passado, já não rende absolutamente nada.

Do lado do palácio, os castanheiros de que falámos coroam o muro, o que não impede outras árvores luxuriantes e floridas de introduzir nos intervalos os seus ramos ávidos de ar. Num canto em que a folhagem é de tal forma abundante que a luz mal ali penetra, um comprido banco de pedra e cadeiras de jardim indicam um lugar de reunião ou um retiro favorito de qualquer habitante do palácio, situado a cem passos e que mal se vê através da muralha de verdura que o envolve. Enfim, a escolha daquele recanto misterioso é ao mesmo tempo justificada pela ausência do sol, pela frescura permanente, mesmo durante os dias mais quentes do Verão, pelo chilreal da passarada e pelo afastamento da casa e da rua, isto é, dos problemas domésticos e do barulho.

Na tarde de um dos dias mais quentes que até ali a Primavera concedera aos habitantes de Paris, encontrava-se em cima do banco de pedra um livro, uma sombrinha, um cesto de costura e um lenço de cambraia de linho com um bordado começado; e não longe do banco, junto do portão, de pé diante das tábuas, com o olho aplicado à vedação engradada, estava uma jovem, que espreitava por uma fenda a horta deserta que já conhecemos.

Quase imediatamente, a portinha do terreno fechava-se sem ruído e um rapaz alto, forte, de blusa de pano-cru e barrete de veludo, mas cujos bigodes pretos extremamente cuidados destoavam um bocado da vestimenta popular, depois de olhar rapidamente à sua volta para se certificar de que ninguém o espiava, dirigia-se com passo rápido para o portão.

Ao ver aquele que esperava, mas não provavelmente assim vestido, a jovem teve medo e recuou.

Entretanto, porém, o rapaz, com esse olhar que só os namorados possuem, já vira através das fendas da porta flutuar o vestido branco e a comprida faixa azul da amada. Assim, correu para a vedação, aplicou a boca a uma abertura e disse:

- Não tenha medo, Valentine, sou eu.

A jovem aproximou-se.

- Oh, senhor, porque veio hoje tão tarde? - perguntou. - Não sabe que em breve vamos jantar e que precisei de muita diplomacia e rapidez para me desembaraçar da minha madrasta, que me espia, da minha criada de quarto, que me vigia, e do meu irmão, que me atormenta por vir bordar para aqui um lenço que receio muito não esteja pronto tão cedo? Depois de justificar o seu atraso, dir-me-á que novo traje é esse que resolveu usar e que quase me não permitiu reconhecê-lo.

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Capa do livro O Conde de Monte Cristo
Páginas: 1080
Página atual: 497

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Marselha - A Chegada 1
O pai e o filho 8
Os Catalães 14
A Conspiração 23
O banquete de noivado 28
O substituto do Procurador Régio 38
O interrogatório 47
O Castelo de If 57
A festa de noivado 66
Os Cem Dias 89
O número 34 e o número 27 106
Um sábio italiano 120
A cela do abade 128
O Tesouro 143
O terceiro ataque 153
O cemitério do Castelo de If 162
A Ilha de Tiboulen 167
Os contrabandistas 178
A ilha de Monte-Cristo 185
Deslumbramento 192
O desconhecido 200
A Estalagem da Ponte do Gard 206
O relato 217
Os registos das prisões 228
Acasa Morrel 233
O 5 de Stembro 244
Itália - Simbad, o marinheiro 257
Despertar 278
Bandidos Romanos 283
Aparição 309
A Mazzolata 327
O Carnaval de Roma 340
As Catacumbas de São Sebastião 356
O encontro 369
Os convivas 375
O almoço 392
A apresentação 403
O Sr. Bertuccio 415
A Casa de Auteuil 419
A vendetta 425
A chuva de sangue 444
O crédito ilimitado 454
A parelha pigarça 464
Ideologia 474
Haydée 484
A família Morrel 488
Píramo e Tisbe 496
Toxicologia 505
Roberto, o diabo 519
A alta e a baixa 531
O major Cavalcanti 540
Andrea Cavalcanti 548
O campo de Luzerna 557
O Sr. Noirtier de Villefort 566
O testamento 573
O telégrafo 580
Meios de livrar um jardineiro dos ratos-dos-pomares que lhe comem os pêssegos 588
Os fantasmas 596
O jantar 604
O mendigo 613
Cena conjugal 620
Projetos de casamento 629
No gabinete do Procurador Régio 637
Um baile de Verão 647
As informações 653
O baile 661
O pão e o sal 668
A Sra. de Saint-Méran 672
A promessa 682
O jazigo da família Villefort 705
A ata da sessão 713
Os progressos de Cavalcanti filho 723
Haydée 732
Escrevem-nos de Janina 748
A limonada 762
A acusação 771
O quarto do padeiro reformado 776
O assalto 790
A mão de Deus 801
Beauchamp 806
A viagem 812
O julgamento 822
A provocação 834
O insulto 840
A Noite 848
O duelo 855
A mãe e o filho 865
O suicídio 871
Valentine 879
A confissão 885
O pai e a filha 895
O contrato 903
A estrada da Bélgica 912
A estalagem do sino e da garrafa 917
A lei 928
A aparição 937
Locusta 943
Valentine 948
Maximilien 953
A assinatura de Danglars 961
O Cemitério do Père-lachaise 970
A partilha 981
O covil dos leões 994
O juiz 1001
No tribunal 1009
O libelo acusatório 1014
Expiação 1021
A partida 1028
O passado 1039
Peppino 1049
A ementa de Luigi Vampa 1058
O Perdão 1064
O 5 de Outubro 1069
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