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Capítulo 111: Expiação

Página 1026

O abade arrancou a sua falsa tonsura, sacudiu a cabeça, e os seus longos cabelos negros, deixando de estar comprimidos, caíram-lhe sobre os ombros e emolduraram-lhe o rosto másculo.

- É a cara do Sr. de Monte-Cristo! - gritou Villefort, com os olhos esgazeados.

- Ainda não é essa, Sr. Procurador Régio; procure melhor e mais longe.

- Essa voz... essa voz!... Onde a ouvi pela primeira vez?

- Ouviu-a pela primeira vez em Marselha, há vinte e três anos, no dia do seu casamento com Mademoiselle de Saint-Méran. Procure nos seus arquivos.

- Não é Busoni... Não é Monte-Cristo... Meu Deus, é o inimigo oculto, implacável, mortal! Fiz qualquer coisa contra si em Marselha... Oh, como sou infeliz!

- Sim, tem razão, é isso - redarguiu o conde, cruzando os braços no peito amplo. - Procure, procure!

- Mas que lhe fiz eu?! - gritou Villefort, cujo espírito pairava já no limite em que se confundem a razão e a demência, nessa neblina que já não é sonho, mas ainda não é despertar. Que lhe fiz eu? Diga! Fale!

- Condenou-me a uma morte lenta e medonha, matou o meu pai e roubou-me o amor com a liberdade e a fortuna com o amor!

- Quem é o senhor? Quem é o senhor? Meu Deus!...

- Sou o fantasma do desventurado que o senhor sepultou nas masmorras do castelo de If. Esse fantasma, que conseguiu sair por fim da sua tumba, recebeu de Deus a máscara do conde de Monte-Cristo, e por Deus foi coberto de diamantes e ouro para que o senhor só hoje o reconhecesse.

- Ah, já te reconheço, já te reconheço! - exclamou o procurador régio. - Tu és...

- Edmond Dantès!

- Tu és Edmond Dantès! - gritou o procurador régio, agarrando o conde pelo pulso. - Então, vem! E arrastou-o pela escada, na qual Monte-Cristo o seguiu, atónito, ignorando aonde o procurador régio o levava e pressentindo alguma nova catástrofe.

- Vê! Vê, Edmond Dantès! - disse, mostrando ao conde o cadáver da mulher e o corpo do filho. - Vê! Achas que estás bem vingado?

Monte-Cristo empalideceu perante o horrível espectáculo.

Compreendeu que acabava de ultrapassar os direitos da vingança; compreendeu que já não podia dizer: «Deus é por mim e está comigo.»

Lançou-se com um sentimento de angústia inexprimível sobre o corpo do garoto, abriu-lhe os olhos, apalpou-lhe o pulso e correu com ele para o quarto de Valentine, que fechou à chave...

- O meu filho! - gritou Villefort. - Leva o cadáver do meu filho! Oh, maldição, maldição, que a morte caia sobre ti!

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Capa do livro O Conde de Monte Cristo
Páginas: 1080
Página atual: 1026

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Marselha - A Chegada 1
O pai e o filho 8
Os Catalães 14
A Conspiração 23
O banquete de noivado 28
O substituto do Procurador Régio 38
O interrogatório 47
O Castelo de If 57
A festa de noivado 66
Os Cem Dias 89
O número 34 e o número 27 106
Um sábio italiano 120
A cela do abade 128
O Tesouro 143
O terceiro ataque 153
O cemitério do Castelo de If 162
A Ilha de Tiboulen 167
Os contrabandistas 178
A ilha de Monte-Cristo 185
Deslumbramento 192
O desconhecido 200
A Estalagem da Ponte do Gard 206
O relato 217
Os registos das prisões 228
Acasa Morrel 233
O 5 de Stembro 244
Itália - Simbad, o marinheiro 257
Despertar 278
Bandidos Romanos 283
Aparição 309
A Mazzolata 327
O Carnaval de Roma 340
As Catacumbas de São Sebastião 356
O encontro 369
Os convivas 375
O almoço 392
A apresentação 403
O Sr. Bertuccio 415
A Casa de Auteuil 419
A vendetta 425
A chuva de sangue 444
O crédito ilimitado 454
A parelha pigarça 464
Ideologia 474
Haydée 484
A família Morrel 488
Píramo e Tisbe 496
Toxicologia 505
Roberto, o diabo 519
A alta e a baixa 531
O major Cavalcanti 540
Andrea Cavalcanti 548
O campo de Luzerna 557
O Sr. Noirtier de Villefort 566
O testamento 573
O telégrafo 580
Meios de livrar um jardineiro dos ratos-dos-pomares que lhe comem os pêssegos 588
Os fantasmas 596
O jantar 604
O mendigo 613
Cena conjugal 620
Projetos de casamento 629
No gabinete do Procurador Régio 637
Um baile de Verão 647
As informações 653
O baile 661
O pão e o sal 668
A Sra. de Saint-Méran 672
A promessa 682
O jazigo da família Villefort 705
A ata da sessão 713
Os progressos de Cavalcanti filho 723
Haydée 732
Escrevem-nos de Janina 748
A limonada 762
A acusação 771
O quarto do padeiro reformado 776
O assalto 790
A mão de Deus 801
Beauchamp 806
A viagem 812
O julgamento 822
A provocação 834
O insulto 840
A Noite 848
O duelo 855
A mãe e o filho 865
O suicídio 871
Valentine 879
A confissão 885
O pai e a filha 895
O contrato 903
A estrada da Bélgica 912
A estalagem do sino e da garrafa 917
A lei 928
A aparição 937
Locusta 943
Valentine 948
Maximilien 953
A assinatura de Danglars 961
O Cemitério do Père-lachaise 970
A partilha 981
O covil dos leões 994
O juiz 1001
No tribunal 1009
O libelo acusatório 1014
Expiação 1021
A partida 1028
O passado 1039
Peppino 1049
A ementa de Luigi Vampa 1058
O Perdão 1064
O 5 de Outubro 1069
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Artigos: Porque lemos literatura | O Ensaio na literatura | O primeiro texto da língua portuguesa 
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