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Capítulo 111: Expiação

Página 1027
Quis correr atrás de Monte-Cristo; mas como num sonho, sentiu os pés criarem raízes, os olhos dilatarem-se-lhe a ponto de quase lhe saltarem das órbitas, e os seus dedos recurvados no peito cravaram-se gradualmente na carne até o sangue lhe avermelhar as unhas. Por fim, as veias das têmporas encheram-se-lhe de espíritos irrequietos, que lhe levantaram a abóbada muito estreita do crânio e lhe mergulharam o cérebro num dilúvio de fogo.

Aquela imobilidade durou vários minutos, até se concluir a horrível subversão da razão.

Então, soltou um grande grito, seguido de uma longa gargalhada, e precipitou-se para a escada.

Um quarto de hora depois o quarto de Valentine voltou a abrir-se e o conde de Monte-Cristo reapareceu.

Pálido, com os olhos tristes e o peito opresso, todas as feições daquele rosto habitualmente tão calmo e tão nobre estavam transtornadas pela dor. Trazia nos braços o garoto, ao qual nenhum socorro pudera restituir a vida.

Pôs um joelho no chão e depositou-o religiosamente ao pé da mãe, com a cabeça pousada no peito dela.

Depois levantou-se, saiu e perguntou a um criado que encontrou na escada:

- Onde está o Sr. de Villefort? Sem responder, o criado apontou para o lado do jardim. Monte-Cristo desceu a escadaria, encaminhou-se para o sítio indicado e viu, no meio dos criados que formavam círculo à volta dele, Villefort, de enxada na mão a revolver a terra com uma espécie de raiva.

- Ainda não é aqui - dizia. - Ainda não é aqui...

E cavava mais longe.

Monte-Cristo aproximou-se dele e disse-lhe baixinho, em tom quase humilde:

- Perdeu um filho, mas...

Villefort interrompeu-o; não ouvira nem compreendera.

- Oh, hei-de encontrá-lo! - gritou. - Escusa de dizer que não está aqui, pois hei-de encontrá-lo nem que tenha de procurá-lo até ao dia do Juízo Final.

Monte-Cristo recuou aterrado.

- Enlouqueceu! - exclamou.

E como se receasse que as paredes da casa maldita se abatessem sobre si, correu para a rua, duvidando pela primeira vez que tivesse o direito de fazer o que fizera.

- Oh, basta, basta! - gritou. - Salvemos o último.

Ao chegar a casa, Monte-Cristo encontrou Morrel, que vagueava pelo palácio dos Campos Elísios, silencioso como um fantasma que esperasse o momento fixado por Deus para regressar ao seu túmulo.

- Prepare-se, Maximilien - disse-lhe com um sorriso. Saímos de Paris amanhã.

- Já não tem mais nada a fazer aqui? - perguntou Morrel.

- Não - respondeu Monte-Cristo -, e Deus queira que não tenha feito de mais.

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Capa do livro O Conde de Monte Cristo
Páginas: 1080
Página atual: 1027

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Marselha - A Chegada 1
O pai e o filho 8
Os Catalães 14
A Conspiração 23
O banquete de noivado 28
O substituto do Procurador Régio 38
O interrogatório 47
O Castelo de If 57
A festa de noivado 66
Os Cem Dias 89
O número 34 e o número 27 106
Um sábio italiano 120
A cela do abade 128
O Tesouro 143
O terceiro ataque 153
O cemitério do Castelo de If 162
A Ilha de Tiboulen 167
Os contrabandistas 178
A ilha de Monte-Cristo 185
Deslumbramento 192
O desconhecido 200
A Estalagem da Ponte do Gard 206
O relato 217
Os registos das prisões 228
Acasa Morrel 233
O 5 de Stembro 244
Itália - Simbad, o marinheiro 257
Despertar 278
Bandidos Romanos 283
Aparição 309
A Mazzolata 327
O Carnaval de Roma 340
As Catacumbas de São Sebastião 356
O encontro 369
Os convivas 375
O almoço 392
A apresentação 403
O Sr. Bertuccio 415
A Casa de Auteuil 419
A vendetta 425
A chuva de sangue 444
O crédito ilimitado 454
A parelha pigarça 464
Ideologia 474
Haydée 484
A família Morrel 488
Píramo e Tisbe 496
Toxicologia 505
Roberto, o diabo 519
A alta e a baixa 531
O major Cavalcanti 540
Andrea Cavalcanti 548
O campo de Luzerna 557
O Sr. Noirtier de Villefort 566
O testamento 573
O telégrafo 580
Meios de livrar um jardineiro dos ratos-dos-pomares que lhe comem os pêssegos 588
Os fantasmas 596
O jantar 604
O mendigo 613
Cena conjugal 620
Projetos de casamento 629
No gabinete do Procurador Régio 637
Um baile de Verão 647
As informações 653
O baile 661
O pão e o sal 668
A Sra. de Saint-Méran 672
A promessa 682
O jazigo da família Villefort 705
A ata da sessão 713
Os progressos de Cavalcanti filho 723
Haydée 732
Escrevem-nos de Janina 748
A limonada 762
A acusação 771
O quarto do padeiro reformado 776
O assalto 790
A mão de Deus 801
Beauchamp 806
A viagem 812
O julgamento 822
A provocação 834
O insulto 840
A Noite 848
O duelo 855
A mãe e o filho 865
O suicídio 871
Valentine 879
A confissão 885
O pai e a filha 895
O contrato 903
A estrada da Bélgica 912
A estalagem do sino e da garrafa 917
A lei 928
A aparição 937
Locusta 943
Valentine 948
Maximilien 953
A assinatura de Danglars 961
O Cemitério do Père-lachaise 970
A partilha 981
O covil dos leões 994
O juiz 1001
No tribunal 1009
O libelo acusatório 1014
Expiação 1021
A partida 1028
O passado 1039
Peppino 1049
A ementa de Luigi Vampa 1058
O Perdão 1064
O 5 de Outubro 1069
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