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Capítulo 9: A festa de noivado

Página 68

- O homem a que se refere - declarou Villefort, bruscamente - é um grande criminoso e não posso fazer nada por ele, menina.

Mercédès deixou escapar um soluço e como Villefort procurasse seguir o seu caminho ela deteve-o segunda vez.

- Mas ao menos onde está, para que me possa informar se se encontra morto ou vivo? - perguntou.

- Não sei, já me não pertence - respondeu Villefort

E perturbado por aquele olhar meigo e por aquela atitude suplicante, afastou Mercédès, entrou e fechou rapidamente a porta, como que para deixar do lado de fora aquela dor que lhe traziam.

Mas a dor não se deixou repelir assim. Como o dado mortal de que fala Virgílio, o homem ferido levou-a consigo. Villefort entrou, fechou a porta, mas quando chegou à sala as pernas fraquejaram-lhe por seu turno. Soltou um suspiro que parecia um soluço e deixou-se cair numa poltrona.

Então, no fundo daquele coração doente nasceu o primeiro germe de uma úlcera mortal. Aquele homem que sacrificava à sua ambição, aquele inocente que pagava pelo seu pai culpado, apareceu-lhe pálido e ameaçador, dando a mão à noiva, pálida como ele, e arrastando atrás de si o remorso, não o que faz saltar o doente como os furiosos da fatalidade antiga, mas sim esse tinido abafado e doloroso que em certos momentos atinge o coração e o deixa confuso, ao recordar uma ação passada, confusão cujas dores lancinantes cavam um mal que se vai aprofundando até à morte.

Então, houve na alma daquele homem ainda um instante de hesitação. Já diversas vezes pedira, e isso sem outra emoção do que a da luta do juiz com o acusado, a pena de morte contra os réus; e esses réus, executados graças à eloquência avassaladora com que dominara os juízes ou o júri, nem sequer lhe tinham deixado uma sombra na fronte, porque eram culpados, ou pelo menos Villefort assim os considerava.

Mas desta vez o caso era muito diferente: acabava de aplicar a um inocente uma pena de prisão perpétua, a um inocente que ia ser feliz e a quem roubava não só a liberdade, mas também a felicidade. Desta vez já não era juiz, era carrasco.

Pensando nisto, sentia a palpitação abafada que descrevemos, e que até ali desconhecera, ecoar-lhe no fundo do coração e encher-lhe o peito de vagas apreensões. É assim, através do violento sofrimento instintivo, que o ferido é avisado e jamais aproxima sem tremer o dedo da ferida aberta e sangrenta antes de ela fechar.

Mas a ferida que recebera Villefort era daquelas que não fecham, ou que só fecham para reabrir mais sangrentas e dolorosas do que anteriormente.

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Capa do livro O Conde de Monte Cristo
Páginas: 1080
Página atual: 68

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
Marselha - A Chegada 1
O pai e o filho 8
Os Catalães 14
A Conspiração 23
O banquete de noivado 28
O substituto do Procurador Régio 38
O interrogatório 47
O Castelo de If 57
A festa de noivado 66
Os Cem Dias 89
O número 34 e o número 27 106
Um sábio italiano 120
A cela do abade 128
O Tesouro 143
O terceiro ataque 153
O cemitério do Castelo de If 162
A Ilha de Tiboulen 167
Os contrabandistas 178
A ilha de Monte-Cristo 185
Deslumbramento 192
O desconhecido 200
A Estalagem da Ponte do Gard 206
O relato 217
Os registos das prisões 228
Acasa Morrel 233
O 5 de Stembro 244
Itália - Simbad, o marinheiro 257
Despertar 278
Bandidos Romanos 283
Aparição 309
A Mazzolata 327
O Carnaval de Roma 340
As Catacumbas de São Sebastião 356
O encontro 369
Os convivas 375
O almoço 392
A apresentação 403
O Sr. Bertuccio 415
A Casa de Auteuil 419
A vendetta 425
A chuva de sangue 444
O crédito ilimitado 454
A parelha pigarça 464
Ideologia 474
Haydée 484
A família Morrel 488
Píramo e Tisbe 496
Toxicologia 505
Roberto, o diabo 519
A alta e a baixa 531
O major Cavalcanti 540
Andrea Cavalcanti 548
O campo de Luzerna 557
O Sr. Noirtier de Villefort 566
O testamento 573
O telégrafo 580
Meios de livrar um jardineiro dos ratos-dos-pomares que lhe comem os pêssegos 588
Os fantasmas 596
O jantar 604
O mendigo 613
Cena conjugal 620
Projetos de casamento 629
No gabinete do Procurador Régio 637
Um baile de Verão 647
As informações 653
O baile 661
O pão e o sal 668
A Sra. de Saint-Méran 672
A promessa 682
O jazigo da família Villefort 705
A ata da sessão 713
Os progressos de Cavalcanti filho 723
Haydée 732
Escrevem-nos de Janina 748
A limonada 762
A acusação 771
O quarto do padeiro reformado 776
O assalto 790
A mão de Deus 801
Beauchamp 806
A viagem 812
O julgamento 822
A provocação 834
O insulto 840
A Noite 848
O duelo 855
A mãe e o filho 865
O suicídio 871
Valentine 879
A confissão 885
O pai e a filha 895
O contrato 903
A estrada da Bélgica 912
A estalagem do sino e da garrafa 917
A lei 928
A aparição 937
Locusta 943
Valentine 948
Maximilien 953
A assinatura de Danglars 961
O Cemitério do Père-lachaise 970
A partilha 981
O covil dos leões 994
O juiz 1001
No tribunal 1009
O libelo acusatório 1014
Expiação 1021
A partida 1028
O passado 1039
Peppino 1049
A ementa de Luigi Vampa 1058
O Perdão 1064
O 5 de Outubro 1069
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Artigos: Porque lemos literatura | O Ensaio na literatura | O primeiro texto da língua portuguesa 
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