O Mistério da Estrada de Sintra - Cap. 16: CAPÍTULO IV Pág. 97 / 245

Tinha-lhe algumas vezes dado flores, e uma noite que num terraço em Calcutá, olhávamos as poderosas constelações da India, o céu pulverizado de luz, ela tinha um momento esquecido as suas mãos entre as minhas. A sua beleza perturbava-me como um vinho muito forte. E ali, naquela floresta, sob

um céu afogueado, entre os aromas das magnólias, Carmen aparecia-me com uma beleza prestigiosa, cheia de tentações, a que se não foge.

- Ah Carmen, disse eu, quem sabe os que voltarão a Calcutá!

- Está rindo, capitão…

- Na caçada do tigre pôde-se pensar nisto: o tigre é astuto; tem o instinto do inimigo mais bravo e do que é mais lamentado.

- Ninguém hoje seria mais lamentado que o capitão.

- Só hoje?

- Sempre, e bem sabe por quê.

De repente o meu cavalo estacou.

- O tigre! o tigre! gritaram os malaios.

Os cavalos da frente recuaram; os cipaios entraram nas fileiras da caravana. Os cães latiam, os malaios soltavam gritos guturais, e o elefante estendia a tromba, silencioso. De repente, houve como uma pausa solene e triste, e um vento muito quente passou nas folhagens.

Estávamos em frente de uma clareira coberta de um sol faiscante. Do outro lado havia um bosque de tamarindos: era ali decerto que a fera dormia. Voltei-me para D. Nicazio: vi-o pálido e inquieto.

- D. Nicazio! dê o primeiro tiro, o sinal de alarme!

D. Nicazio picou rapidamente o cavalo para mim, murmurou com uma voz sufocada:

- Quero subir para o elefante. Carmen não deve estar só; pode haver perigo…

Falei aos malaios, que desdobraram a estreita escada de bambu, por onde se sobe ao dorso dos elefantes. O Carnak dormia encruzado no vasto pescoço do animal. D. Nicazio subiu com avidez, arremeçou-se para dentro do palanquim, e de lá, pela fenda das cortinas, espreitava com o olho faiscante e medroso.





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