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Capítulo 6: VI - Ao despertar de Carlos

Página 62

Espalhou-se então no aposento uma meia claridade, coada através das longas cortinas que, soltas das abraçadeiras douradas, rojavam pelo tapete.

Pôde então o velho observar a completa desordem que ia naquela sala.

Estes raios de luz, menos felizes do que os evocados pelo fiat lux do Génesis, pode dizer-se que vieram ainda iluminar um caos; pois dificilmente se encontraria mais apropriada expressão para designar o aspecto do aposento, a cuja vista se dissolveu em sorrisos toda a sisuda gravidade desenhada nos lábios e nas feições do mordomo.

A cena, de facto, escapa à mais esmiuçadora descrição.

Parecia que os objectos, ali contidos, haviam, durante a noite, entrado em dança fantástica, de tal sorte os surpreendera o dia, deslocados da natural situação.

As cadeiras, amontoadas em desordem no meio da sala, haviam usurpado as atribuições dos guarda-roupas; estes, abertos de par em par, patenteavam o interior desordenado e quase vazio, como após um saque de cidade conquistada.

Nas mesas, nos sofás, em voltaires, no chão, por toda a parte enfim, menos nos lugares competentes, viam-se casacos, coletes, calças, mantas de diferentes cores e feitios. O pavimento achava-se literalmente alastrado de objectos de impossível enumeração; aqui, umas luvas, calçadas pela primeira vez na véspera e já postas de lado como inúteis; ali, alguns ramos de flores desfolhadas e murchas, cuja posse, procurada talvez com incansável insistência, trouxe depressa após si o abandono e o esquecimento; noutros pontos, charutos meio consumidos, os fragmentos de uma preciosa jarra de porcelana da Índia, um livro, que cometera o delito de não excitar a curiosidade, uma cadeira derrubada com o fardo que lhe pesou sobre o espaldar; cartas, colarinhos, retratos, lenços, chicotes.

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pág. 62 (Capítulo 6)

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Capa do livro Uma Família Inglesa
Páginas: 432
Página atual: 62

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
I - Espécie de prólogo, em que se faz uma apresentação ao leitor 1
II - Mais duas apresentações, e acaba o prólogo 11
III - Na Águia de Ouro 21
IV - Um anjo familiar 42
V - Uma manhã de Mr. Richard 53
VI - Ao despertar de Carlos 61
VII - Revista da noite 71
VIII - Na praça 81
IX - No escritório 94
X – Jenny 110
XI – Cecília 119
XII - Outro depoimento 128
XIII - Vida portuense 139
XIV - Iminências de crise 159
XV - Vida inglesa 168
XVI - No teatro 182
XVII - Contas de Carlos com a consciência 197
XVIII - Contas de Jenny com a consciência de Carlos 212
XIX - Agravam-se os sintomas 222
XX - Manuel Quintino procura distracções 236
XXI - O que vale uma resolução 247
XXII - Educação comercial 262
XXIII - Diplomacia do coração 277
XXIV - Em que a senhora Antónia procura encher-se de razão 283
XXV - Tempestade doméstica 290
XXVI - Ineficaz mediação de Jenny 298
XXVII - O motivo mais forte 305
XXVIII - Forma-se a tempestade em outro ponto 312
XXIX - Os amigos de Carlos 326
XXX - Peso que pode ter uma leviandade 344
XXXI - O que se passava em casa de Manuel Quintino 353
XXXII - Os convivas de Mr. Richard 362
XXXIII - Em honra de Jenny 371
XXXIV - Manuel Quintino alucinado 381
XXXVI - A defesa da irmã 397
XXXVII - Como se educa a opinião pública 406
XXXVIII - Justificação de Carlos 412
XXXIX - Coroa-se a obra 422
Conclusão 432
 
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