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Capítulo 30: XXXI

Página 463
XXXI

A morte do ervanário deu muito que falar na aldeia, não só pela qualidade de homem que era aquele, como pelas circunstâncias, no meio das quais o facto sucedera. O resultado da eleição, conquanto momentoso, não distraía do assunto as atenções; pois que, tendo sido sucessos simultâneos, associavam-se naturalmente nas conversas e discussões, e um chamava o outro.

O ervanário não fora colhido desprevenidamente pela morte; havia muito tempo que fizera as suas disposições e por elas legara a Augusto tudo quanto possuía, isto é, alguns livros, entre os quais a Polianteia, e o preço, quase intacto, que recebera pela casa expropriada.

Logo que estas disposições foram sabidas, não faltou quem achasse nelas a explicação da amizade desvelada com que Augusto sempre tratara o velho, e do piedoso acatamento com que o recebera em casa, assim que da sua o expeliram.

Nós que, por um direito legítimo e inauferível, podemos julgar a fundo do carácter de Augusto asseguramos que eram inexactos tais juízos.

É uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma fé que se tem no desinteresse dos outros! Não há explicação mais difícil de ser recebida do que a que se fundamenta num sentimento nobre de abnegação ou de generosidade.

É preciso que duvidemos muito de nós mesmos, para assim desconfiarmos do próximo. Porque afinal o que é verdade é que a mais exacta e infalível ciência do coração humano só se adquire pelo estudo do próprio coração: esse é o único que nos está bem patente.

É por isso que as melhores almas são, de ordinário, as mais crentes.

Um homem a quem a desconfiança tenazmente escuda contra todas as aparências de virtude, ainda as mais insinuantes, tem já tão inquinado o coração como supõe o dos outros.

O enterro do ervanário verificou-se no dia seguinte ao da morte e foi muito concorrido.

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pág. 463 (Capítulo 30)

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Capa do livro A Morgadinha dos Canaviais
Páginas: 508
Página atual: 463

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
I 1
II 15
III 32
IV 49
V 68
VI 81
VII 95
VIII 113
IX 127
X 144
XI 160
XII 176
XIII 192
XIV 206
XV 226
XVI 239
XVII 252
XVIII 271
XIX 292
XX 309
XXI 324
XXII 339
XXIII 361
XXIV 371
XXV 383
XXVI 397
XXVII 404
XXVIII 416
XXX 440
XXXI 463
XXXII 476
XXXIII 487
Conclusão 506
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