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Capítulo 3: III

Página 32
III

Ao romper da manhã, quando a consciência principia, pouco a pouco, a acudir aos sentidos, até então tomados pelo torpor de um sono profundo, Henrique de Souselas sonhava-se comodamente sentado em uma cadeira de S. Carlos, disposto a assistir ao desempenho de uma ópera favorita.

Moviam-se os arcos nas cordas dos violinos, violoncelos e contrabaixos; sopravam, a plena boca, os tocadores dos instrumentos de vento; agitavam descompostamente os braços os ruidosos timbaleiros; dedos amestrados faziam vibrar as cordas da harpa; a batuta do mestre fendia airosamente os ares, e contudo não chegava aos ouvidos de Henrique, de toda esta riqueza de instrumentação, mais do que uma nota única, arrastada, contínua, plangente, baixando e subindo na escala dos tons, e sem formular uma só frase musical.

Era de desesperar um diletante como ele: torcia-se na cadeira, inclinava convenientemente a cabeça, fazia das mãos cornetas acústicas, e sempre o mesmo resultado! Este violento estado de atenção, este esforço do sensório, principiou nele a obra do despertar; principiou pois pelos ouvidos, mas cedo se transmitiu a todos os outros órgãos.

Antes de dar a si próprio conta do que era aquele som, e quase esquecido ainda do lugar em que estava, Henrique abriu os olhos.

A luz do dia penetrava já pelas frestas mal vedadas das janelas e espalhava no aposento uma ténue claridade.

Veio então a Henrique a consciência do lugar em que estava, e uma alegria profunda lhe dilatou o coração.

O leitor, se ainda não padeceu de insónias, de pesadelos, ou de sonhos febris, não avalia por certo o contentamento íntimo que se apossa das desgraçadas vítimas desses demónios nocturnos, quando por excepção eles as deixam em paz, e lhes respeitam o sono de uma noite completa.

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Capa do livro A Morgadinha dos Canaviais
Páginas: 508
Página atual: 32

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
I 1
II 15
III 32
IV 49
V 68
VI 81
VII 95
VIII 113
IX 127
X 144
XI 160
XII 176
XIII 192
XIV 206
XV 226
XVI 239
XVII 252
XVIII 271
XIX 292
XX 309
XXI 324
XXII 339
XXIII 361
XXIV 371
XXV 383
XXVI 397
XXVII 404
XXVIII 416
XXX 440
XXXI 463
XXXII 476
XXXIII 487
Conclusão 506
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