Era Cecília.
Vejam como ela tentava arrancar da cabeça, ou antes do coração, o que chamara «loucura»!
E desejaria deveras arrancá-la?
Sem ser vista, seguia todos os movimentos de Carlos; viu-o passar; olhar com atenção para as janelas; caminhar mais devagar à medida que se afastava; parar e, parecendo tomar uma súbita resolução, retroceder, atravessar a rua e entrar para o portal da casa.
Cecília recuou, como se pudesse temer ser vista de fora.
Cedo ouviu tocar a campainha da cancela.
Cecília estremeceu e dirigiu-se ao corredor.
Já aí encontrou Antónia, que descia, para ver quem tocava.
– Antónia – disse-lhe rapidamente Cecília – se for alguém a procurar-me… diga-lhe que… não posso falar, que… estou doente… seja quem for… Entende?
– Entendo, sim, menina – respondeu Antónia, com um sorriso de quem entendia de mais.
Foi com modos desabridos que recebeu Carlos…
Este perguntou-lhe se Manuel Quintino tinha ido de facto para o escritório, porque, vendo todas as janelas fechadas, lembrara-se de que tivesse talvez recaído.
Antónia respondeu:
– Pois fique descansado. Foi para o escritório, foi, sim, senhor. Ele agora está bom de todo. E a menina manda dizer que não pode falar a ninguém, porque está doente.
– Doente?! – perguntou Carlos, com uma inflexão de voz que fez quase arrepender Cecília, que o escutava, da ordem que dera à criada.
– Não é coisa de cuidado, graças a Deus – prosseguiu esta –; mas, em todo o caso, não a deixará tão cedo receber visitas… de cerimónia. E há-de dar-me licença, que tenho a minha vida.
E, acto contínuo, ouviu-se bater a cancela, que se fechava.
– Antónia – disse Cecília à criada, assim que esta chegou ao patamar, trazendo nos lábios um sorriso de vitória – a falar verdade, você foi de uma grosseria!
– Ora deixe lá, menina.