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Capítulo 5: V - Uma manhã de Mr. Richard

Página 60

Agora como que sentia vergonha de ter a sua afeição resistido inteira ao delito filial, e de não lhe restar já no coração força bastante para reprimir as expansões dela.

– Aí está – dizia Mr. Richard a Jenny, procurando com um tom sacudido tirar às palavras a menor sombra de afecto. – Se quiseres, podes dar isso a teu irmão. Para ele é que eu o destinava, se ontem…

Jenny tomou o relógio das mãos do pai, a quem agradeceu com um sorriso de ternura.

Mr. Richard prosseguiu:

– Que eu não sei se Carlos o quererá; ainda que é objecto de preço…

– O maior preço é ser uma lembrança sua, senhor.

Mr. Richard resmoneou um monossílabo inglês e ensaiou um gesto de inveterado cepticismo, que não lhe saiu muito expressivo.

Jenny acrescentou:

– E de mais preço ainda, se das suas próprias mãos o recebesse.

– Queres talvez que vá acordar Carlos, para que me faça o favor de aceitar as minhas prendas? – perguntou o pai com certo azedume.

– Mas se… logo ao jantar…

– Talvez não nos dê a honra de nos fazer companhia.

– Oh! se Carlos soubesse…

– Nada, nada. Entrega-lho tu, se quiseres.

E, dizendo isto, saiu da sala, atravessou o jardim e dentro em pouco tempo transpunha o portão da rua.

O criado, que o encontrou no corredor, ouviu-o murmurar ainda:

– Parece muito mal.

Mas, chegando à rua, já ia aparentemente satisfeito. Caminhava com a rapidez peculiar ao povo para o qual o tempo é dinheiro, dirigia ao favorito Butterfly frases de cordial afecto e trauteava por entre dentes o popular – Cheer, boys, cheer!…

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Capa do livro Uma Família Inglesa
Páginas: 432
Página atual: 60

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
I - Espécie de prólogo, em que se faz uma apresentação ao leitor 1
II - Mais duas apresentações, e acaba o prólogo 11
III - Na Águia de Ouro 21
IV - Um anjo familiar 42
V - Uma manhã de Mr. Richard 53
VI - Ao despertar de Carlos 61
VII - Revista da noite 71
VIII - Na praça 81
IX - No escritório 94
X – Jenny 110
XI – Cecília 119
XII - Outro depoimento 128
XIII - Vida portuense 139
XIV - Iminências de crise 159
XV - Vida inglesa 168
XVI - No teatro 182
XVII - Contas de Carlos com a consciência 197
XVIII - Contas de Jenny com a consciência de Carlos 212
XIX - Agravam-se os sintomas 222
XX - Manuel Quintino procura distracções 236
XXI - O que vale uma resolução 247
XXII - Educação comercial 262
XXIII - Diplomacia do coração 277
XXIV - Em que a senhora Antónia procura encher-se de razão 283
XXV - Tempestade doméstica 290
XXVI - Ineficaz mediação de Jenny 298
XXVII - O motivo mais forte 305
XXVIII - Forma-se a tempestade em outro ponto 312
XXIX - Os amigos de Carlos 326
XXX - Peso que pode ter uma leviandade 344
XXXI - O que se passava em casa de Manuel Quintino 353
XXXII - Os convivas de Mr. Richard 362
XXXIII - Em honra de Jenny 371
XXXIV - Manuel Quintino alucinado 381
XXXVI - A defesa da irmã 397
XXXVII - Como se educa a opinião pública 406
XXXVIII - Justificação de Carlos 412
XXXIX - Coroa-se a obra 422
Conclusão 432
 
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