E o Cancela levantou-se exasperado, sacudindo rudemente de si a filha, cada vez mais gelada de terror e aflição. Deu alguns passos no corredor, e voltou ao quarto onde a encontrara. Ela seguia-o de mãos postas, chorando, pedindo-lhe que se não afligisse assim.
Mas o Cancela era dominado pela impetuosidade do seu génio.
Nem a ouvia. De repente parou, fitando os olhos no registo do Coração de Maria, que ali fora introduzido por a mulher do Zé P’reira. Estava adornado com jarras de flores e velas de cera; era esta a imagem a que Ermelinda fazia oração, quase extática, quando o pai entrou.
- Coração de Maria! - disse o Cancela, quase desvairado, conservando a vista fixa na imagem, e como falando para si. - Coração de mãe, e de mãe extremosa, que foi esta, e bem lanceada de dores. Soube o que é querer a um filho, o que é vê-lo padecer... o que é perdê-lo... E será ela a que deseja as lágrimas, as tristezas e a morte desta criança?... as desventuras de um pai?... Ela! Não! E, se tu o queres - continuou alucinado, voltando-se para a imagem - se não podes ser adorada senão assim, é porque és falsa, falsa como a mão que aí te pintou, falsa como as bocas que te pregam os milagres. Vai-te! E, no acesso de raiva, que cada vez mais crescia nele, fez voar o caixilho, as jarras e os castiçais pelo ar, e tudo veio fazer-se em pedaços no pavimento.
Ermelinda soltou um grito dilacerante e agudíssimo ao ver aquilo.