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Capítulo 20: XX

Página 255
XX

Enquanto frei Januário conferenciava com Jorge e com a baronesa sobre a maneira de melhor harmonizar a vontade e as ordens expressas do fidalgo com os interesses da casa e com a comodidade pessoal de sua reverendíssima, D. Luís, a quem desde a véspera uma impaciência nervosa não deixava repousar ainda, e que não pudera conformar-se aos seus novos hábitos de vida, saiu do quarto e veio passear agitado e meditativo na vasta sala da entrada, de cujas paredes o contemplavam sisudos os velhos retratos da família.

Não vergava sob uma ideia única e exclusiva o espírito do velho fidalgo, perdia-se no redemoinhar de ideias diversas e antagónicas, que umas às outras disputavam. Saudades, terrores, despeitos, desalentos e até remorsos dos seus passados ódios e vinganças eram os demónios perseguidores e implacáveis, cujo voltear fantástico, rápido como o de um círculo de feiticeiras, quase lhe alienava a razão, ferindo-a de vertigem.

D. Luís envelhecera ultimamente de uma maneira rápida. De encontro à sua organização robusta, quebrara-se por muito tempo a força da corrente dos anos e amortecera a violência dos embates da adversidade, sem que ele experimentasse a leve vacilação que preludia à queda. Porém, desde o momento em que se manifestaram os primeiros sinais de fraqueza, o progresso na declinação foi rápido, e de dia para dia sentia-se desfalecer aquele corpo vigoroso e aquele espírito enérgico.

A manhã estava sombria, o céu carregado, e a chuva miúda, contínua, persistente, sem vento que a agitasse, e ainda mais desesperadora por isso; porque um dia de Inverno sem vento é como a tristeza sem a explosão das paixões, perde-se a esperança de o ver terminar.

A sala em que D. Luís passeava era a menos confortavelmente mobilada de toda a casa; o alto fogão, que ocupava o espaço de duas janelas, jazia apagado, frio, e conservando apenas, como memória da vida que já o animara, as cinzas sem calor.

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pág. 255 (Capítulo 20)

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Capa do livro Os Fidalgos da Casa Mourisca
Páginas: 519
Página atual: 255

 
   
 
   
Os capítulos deste livro:
I 1
II 18
III 25
IV 42
V 54
VI 62
VII 72
VIII 86
IX 102
X 114
XI 127
XII 137
XIII 145
XIV 155
XV 168
XVI 197
XVII 214
XVIII 233
XIX 247
XX 255
XXI 286
XXII 307
XXIII 317
XXIV 332
XXV 348
XXVI 358
XXVII 374
XXVIII 391
XXIX 401
XXX 414
XXXI 426
XXXII 440
XXXIII 450
XXXIV 462
XXXV 477
XXXVI 484
XXXVII 499
Conclusão 515
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